PRODUÇÕES LITERÁRIAS DEDICADAS À FORMAÇÃO

DE REVOLUCIONÁRIOS MARXISTAS QUE ATUAM NO DOMÍNIO DO DIREITO, DO ESTADO E DA JUSTIÇA DE CLASSE

 

 

Lenin e o Regime de Funcionamento da Organização Marxista-Revolucionária

Na Época do Imperialismo Capitalista:

 

Seus Princípios, Seus Congressos, Suas Conferências, Seus Programas, Seus Estatutos, Suas Direções Partidárias,

Vistos à Luz de Suas Posturas Em Face das Frações Internas e Públicas “Permanentes” ou “Virtualmente Permanentes”

 

Em Homenagem aos 100 Anos de Surgimento do Bolchevismo Revolucionário

e a Seu Devido Resgate Pelas Fileiras do Marxismo Revolucionário Contemporâneo  

 

 

EMIL ASTURIG VON MÜNCHEN

PORTAU SCHMIDT VON KÖLN

Para Palestras, Cursos e Publicações sobre o Tema em Destaque

Contatar emilvonmuenchen@web.de

Julho de 2003

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 “ Liebknecht está, naturalmente, furioso,

pois que toda a crítica foi cunhada, especialmente, contra ele.

Ele é o pai que, juntamente com o veado pederasta do Hasselmann,

pariu esse programa podre ...”

Friedrich Engels

Sobre o Programa da Coalizão de Gotha de 1875,

Unificador dos Eisenachianos e Lassalleanos

no quadro do então fundado Partido Socialista dos Trabalhadores da Alemanha[1]

 

 

ÍNDICE

 

QUADRO GERAL DOS CONGRESSOS E CONFERÊNCIAS

DO PARTIDO OPERÁRIO SOCIAL-DEMOCRÁTICO RUSSO - A SEGUIR BOLCHEVIQUE – E, POR FIM, COMUNISTA,

BEM COMO DOS MAIS IMPORTANTES CONGRESSOS INTERNACIONAIS

EM QUE LENIN DIRETA OU INDIRETAMENTE INTERVIU

 

EXPOSIÇÃO INTRODUTÓRIA GERAL

 

·         CAPÍTULO 1.

I Congresso de 1898 do Partido Operário Social-Democrático Russo (POSDR): Um Congresso Fundacional com Tentativa de Unificação, despida de Programa e de Estatuto Partidários

 

·         CAPÍTULO 2.

II Congresso de 1903 do POSDR : Programa e Direção Revolucionários em contraste com um Estatuto Oportunista, Emergência das Frações Internas Bolchevique e Menchevique

 

·         CAPÍTULO 3.

Surgimento em 1903 – 1904 da Fração Pública Bolchevique e do Sistema de Frações no interior do POSDR

 

·         CAPÍTULO 4.

Lenin e Luxemburg : Duas Concepções Antagônicas Relativas à Questão

Organizativa do Partido Revolucionário

 

·         CAPÍTULO 5.

Ruptura de Trotsky com o Menchevismo e Formação do Fracionalismo “Não-Fracionalista”

 

·         CAPÍTULO 6.

III Congresso de 1905 do POSDR : Ascenso Revolucionário, Estratégia e Tática Revolucionárias, Adoção do Parágrafo Primeiro na Versão Leninista, Luta Intra-Fracional Bolchevique travada por Lenin contra os Komitetchkis Aparatistas

 

·         CAPÍTULO 7.

IV Congresso da Unificação de 1906 do POSDR : Luta Fracional dos Mencheviques e do Agrupamento Stalin-Suvorov contra Lenin em torno do Programa Agrário, Tentativa de Fusão das Frações Públicas, Reaparecimento da Estratégia Oportunista, Surgimento de Tendências ou Alas Internas

 

·         CAPÍTULO 8.

V Congresso de 1907 do POSDR : Ressurgimento do Sistema de Frações

 

·         CAPÍTULO 9.

III Conferência de 1907 do POSDR : Luta de Lenin contra o Boicotismo Bolchevique às eleições para a III Duma do Estado

 

·         CAPÍTULO 10.

Surgimento do Menchevismo Liquidacionista e o Processo de Cisão da Fração Menchevique a partir de Dezembro de 1908

 

·         CAPÍTULO 11.

Conferência de 1909 da Redação Ampliada do Jornal “Proletarii(O Proletário)”, Órgão Central da Fração Pública Bolchevique no interior do POSDR: Fracionalismo Intra-Bolchevique, Luta contra as Frações Públicas dos Abstencionistas(Otzovistas), dos Ultimatistas (Ultimatisti) e dos Construtores de Deuses (Bogostroitelis)

 

·         CAPÍTULO 12.

Luta da Fração Bolchevique contra a Fração “Vperiod(Avante)” do POSDR, surgida em Dezembro de 1909 em seu próprio Domínio Intra-Fracional :

Luta contra a Unificação com o Abstencionismo, o Ultimatismo e a Criação de Deuses, sob os Auspícios da Ideologia Idealista-Subjetivista de Mach e Avenarius

 

·         CAPÍTULO 13.

Luta da Fração Bolchevique no interior do POSDR contra a Fração

“Não-Fracionalista” de Trotsky: contra a Unidade de Bolcheviques e

Liquidacionistas de todos os Signos

 

·         CAPÍTULO 14.

Luta da Fração Bolchevique contra a Fração dos Bolcheviques Conciliadores-Virtuosos “Não-Fracionalistas”: contra o Apoio Velado aos Liquidacionistas, contra o Fim do Sistema de Frações

 

·         CAPÍTULO 15.

Formação e Funcionamento do Bloco Bolchevique-Menchevique dos Fiéis ao Partido entre 1909 e 1913

 

·         CAPÍTULO 16.

Formação e Funcionamento do “Bloco sem Princípios” “Não-Fracionalista” e Liquidacionista Ambivalente de Trotsky – Martov – Lunatcharsky entre 1909 e 1912

 

·         CAPÍTULO 17.

VI Conferência do POSDR de Toda a Rússia em 1912 : Fim do Sistema de Frações, Criação do POSDR (Bolchevique) e Luta pela Integral Ruptura do Partido com o Liquidacionismo Menchevique e todos os seus Aliados Sociais-Democratas, seja na Fração da Duma do Estado seja no “Pravda (A Verdade), dirigidos pelo Conciliacionismo Virtuoso Não-Fracionalista Subterrâneo ou Secreto de Stalin

 

·         CAPÍTULO 18.

Formação e Funcionamento do Bloco de Agosto a partir de 1912 : Tentativa de Agrupamento de Unionistas e Mencheviques Conciliadores-Virtuosos “Não-Fracionalistas” com o Liquidacionismo de todos os Signos

 

·         CAPÍTULO 19.

Emergência da Organização dos Unionistas Inter-Distritais Sociais-Democratas (Comitê Inter-Distrital) de Trotsky - Iurenev – Lunatcharky em 1913

 

·         CAPÍTULO 20.

Intervenção do Bureau Central da Internacional Socialista na Luta Fracional Desesperada travada pelos Sociais-Democratas Russos em 1914:

Novo Clamor Baldado em prol da Unidade dos Bolcheviques com o Liquidacionismo de todos os Signos

 

·         CAPÍTULO 21.

Nova Cisão no interior do Menchevismo Liquidacionista no quadro da I Grande Guerra Imperialista: Menchevismo Internacionalista e Menchevismo Chauvinista

 

·         CAPÍTULO 22.

Aproximação e Afastamento em 1914 e 1915 do Menchevismo Liquidacionista-Internacionalista com o Unionismo “Não-Fracionalista” de Trotsky na Emigração em torno de “Nashe Slovo(Nossa Palavra)”

 

·         CAPÍTULO 23.

Aproximação do POSDR (Bolchevique) com o Unionismo “Não-Fracionalista” de Trotsky na Emigração no quadro da Conferência de Zimmerwald de 1915

 

·         CAPÍTULO 24.

Fração Pública Bolchevique-Internacional Derrotista-Revolucionária enquanto Esquerda de Zimmerwald a partir de 1915

 

·         CAPÍTULO 25.

Choque Fracional Público em meio à I Guerra Mundial no interior do POSDR (Bolchevique) do Exílio : a Fração Pacifista-Democrática de Kamenev e dos Deputados Bolcheviques em face da Fração Derrotista-Revolucionária de Sverdlov, Goloschekin e Spandarian

 

·         CAPÍTULO 26.

Choque Fracional Intra-Bolchevique no Exílio em meio à I Guerra Mundial : a Fração Corrosiva-Intriguista de Stalin e Spandarian em face da Fração Otimista-Construtiva de Sverdlov e Goloschekin

 

·         CAPÍTULO 27.

Fração Pública Unionista-Internacional “Não-Fracionalista” em Defesa de uma Paz Democrática sem Anexações e dos Estados Unidos da Europa

 

·         CAPÍTULO 28.

Oposição de Março e Abril de 1917 da Fração Pública de Sverdlov e Goloschekin contra a Direção Nacional Patriótico-Defensista na Guerra Imperialista e Frente-Populista de Esquerda de Stalin e Kamenev no interior do POSDR (Bolchevique)

 

·         CAPÍTULO 29.

Vitória Relâmpago do Bolchevismo de Lenin contra a Fração Bolchevique

Patriótico-Defensista na Guerra Imperialista e Frente-Populista de Esquerda

de Stalin e Kamenev no interior do POSDR (Bolchevique) : Defesa de uma Ampla Revisão do Antigo Programa do POSDR, adotado em 1903, e Estratégia de Reunificação Bolchevique com Forças Sociais-Democratas

Proletárias Internacionalistas

 

·         CAPÍTULO 30.

VI Congresso de Julho – Agosto de 1917 do POSDR (Bolchevique) :

Congresso de Reunificação, sem Produção de Frações Públicas

 

·         CAPÍTULO 31.

Fracionalismo Público-Episódico Anti-Insurrecional e Fura-Greve

de Zinoviev e Kamenev no interior do Bolchevismo :

Exigência de sua Expulsão do Comitê Central e do Partido, Pedido de Demissão de Stalin da Redação do “Pravda (A Verdade)”

 

·         CAPÍTULO 32.

Fracionalismo Público-Episódico de Zinoviev e Kamenev,

Lunatcharsky e Riazanov, contra a Formação de um Governo Provisório Soviético Exclusiva ou Hegemonicamente Bolchevique : Dissolução com Ruptura de Lozovsky

 

·         CAPÍTULO 33.

Divergências de Lenin na Questão da Convocação das Eleições para a Assembléia Nacional Constituinte

 

·         CAPÍTULO 34.

Fração Pública dos “Comunistas de Esquerda”ao longo de 1918 e 1919:

Defesa da Guerra Revolucionária da Rússia Soviética contra a Alemanha Imperialista, sem Forças Armadas Vermelhas Aptas a Combaterem

 

·         CAPÍTULO 35.

I Congresso da Internacional Comunista em 1919

 

·         CAPÍTULO 36.

VIII Congresso de 1919 do Partido Comunista Russo (Bolchevique) : Novo Programa Revolucionário e Aprovação da Fundação da III Internacional Comunista,

Oposição Militar Fracionalista e Sub-Reptícia de Stalin-Voroshilov contra a direção militar de Trotsky e o apoio manifestamente concedido a esse último por Lenin e Sverdlov

 

·         CAPÍTULO 37.

IX Congresso de 1920 do PCR (Bolchevique) : Luta contra a Fração dos Decistas de Sapronov e Ossinsky – apoiada por Rykov e Tomsky – e contra os Primeiros Momentos da Fração da “Oposição Operária” de Schliapnikov e Lozovsky

 

·         CAPÍTULO 38.

II Congresso da Internacional Comunista em 1920

 

·         CAPÍTULO 39.

X Congresso de 1921 do PCR (Bolchevique) : Luta pela Unidade do Partido contra as Frações de Sacudimento Sindical de Trotsky, do Pára-Choque de Bukharin e Preobrajensky, da “Oposição Operária”, dos Anarco-Sindicalistas, dos Decistas e do Burocratismo Operário Acobertado

 

·         CAPÍTULO 40.

III Congresso da Internacional Comunista em 1921

 

·         CAPÍTULO 41.

XI Congresso de 1922 do PCR (Bolchevique):

Luta contra o Ascenso da Burocracia Operária, comandada por Stalin, Zinoviev e Kamenev, Luta Fracional Aberta no Domínio Militar, travada entre Trotsky e Antonov-Ovseienko, de um lado, e Frunze, Gussev e Tukhatchevsky, de outro

 

·         CAPÍTULO 42.

IV Congresso da Internacional Comunista em 1922

 

·         CAPÍTULO 43.

XII Congresso de 1923 do PCR (Bolchevique):

Continuação da Luta contra o Ascenso da Burocracia Operária, comandada por Stalin, Zinoviev e Kamenev no quadro da Enfermidade de Lenin

 

·         CAPÍTULO 44.

Últimos Dias de Lenin na Luta contra o Ascenso da Burocracia Operária,

Comandada por Stalin, Zinoviev e Kamenev

 

 

 

 

 

QUADRO GERAL DOS CONGRESSOS E CONFERÊNCIAS

DO PARTIDO OPERÁRIO SOCIAL-DEMOCRÁTICO RUSSO - A SEGUIR BOLCHEVIQUE – E, POR FIM, COMUNISTA,

BEM COMO DOS MAIS IMPORTANTES CONGRESSOS INTERNACIONAIS

EM QUE LENIN DIRETA OU INDIRETAMENTE INTERVIU

 

 

 

 

POSDR (Congresso Fundacional)

I

Congresso

Minsk

 

01-03/03/1898

 

 

 

 

 

 

 

POSDR (Conferência Preliminar)

I Conferência

Geneva

 

06/1901

 

 

 

 

 

 

 

POSDR (Conferência da „Unidade“)

II Conferência

Zurique

 

21-22/09/1901

 

 

 

 

 

 

 

 

POSDR (Congresso da Cisão)

II Congresso

Bruxelas-Londres

 

17/07/

e 10/08/1903

 

 

 

 

 

 

 

POSDR(Congresso apenas Bolchevique)

III Congresso

Londres

 

12-27/04/1905

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

POSDR(Conferência  apenas Bolchevique)

 

Conferência

Bolchevique

Tammersfors

 

12-17/12/1905

 

 

 

 

 

 

 

 

 

POSDR(Congresso da Unificação)

IV Congresso

Estocolmo

 

10-25/04/1906

 

 

 

 

 

 

 

 

 

POSDR (Congresso da Nova Cisão) 

V Congresso

Londres

 

30/04

e 19/05/1907

 

 

 

 

 

 

 

 

 

POSDR

III Conferência

Kotka

 

21-23/07/1907

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

POSDR

IV Conferência

Helsingfors

(Helsinki)

 

05-12/11/1907

 

 

 

 

 

 

 

 

 

POSDR

V Conferência

Paris

 

21-27/12/1908

 

 

 

 

 

 

 

 

 

POSDR (Bolchevique)

VI Conferência

Praga

 

06-17/01/1912

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Conferência Internacional Socialista de Zimmerwald 

I Conferência

Zimmerwald

 

05-08/09/1915

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Conferência Internacional Socialista de Kienthal

II Conferência

Kienthal

 

24-30/04/1916

 

 

 

 

 

 

 

 

 

POSDR (Bolchevique)

VII Conferência

Petrogrado

 

24-29/041917

 

 

 

 

 

 

 

 

  POSDR(Bolchevique)

  (Congresso da Unificação)

VI Congresso

Petrogrado

 

26/07

e 03/08/1917

 

 

 

 

 

 

 

  PCR(Bolchevique)

VII Congresso

Petrogrado

 

06-08/03/1918

 

 

 

 

 

 

 

  INTERNACIONAL COMUNISTA

I Congresso

Petrogrado

 

02-06/03/1919

 

 

 

 

 

 

 

 

PCR(Bolchevique)

VIII Congresso

Moscou

 

10-23/03/1919

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PCR (Bolchevique)

VIII Conferência

Moscou

 

02-04/12/1919

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PCR (Bolchevique)

IX Congresso

Moscou

 

29-05/04/1920

 

 

 

 

 

 

 

 

 

INTERNACIONAL COMUNISTA

II Congresso

Petrogado e

Moscou

 

19/07 e

07/08/1920

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PCR (Bolchevique)

IX Conferência

Moscou

 

22-25/09/1920

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PCR (Bolchevique)

X Congresso

Moscou

 

08-16/03/1921

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PCR (Bolchevique)

X Conferência

Moscou

 

26-28/05/1921

 

 

 

 

 

 

 

 

 

INTERNACIONAL COMUNISTA

III Congresso

Moscou

 

22/06

e 12/07/1921

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PCR (Bolchevique)

XI Conferência

Moscou

 

14-22/12/1921

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PCR (Bolchevique) 

XI Congresso

Moscou

 

27/03 e

02/04/1922

 

 

 

 

 

 

 

 

 

INTERNACIONAL COMUNISTA

IV Congresso

Moscou

 

05/11 e 05/12/1922

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PCR (Bolchevique) 

XII Congresso

Moscou

 

17-25/04/1923

 

 

 

 

 

 

EXPOSIÇÃO INTRODUTÓRIA GERAL 

 

 

“O padre católico que corrompe as garotas jovens ... 

é precisamente muito menos perigoso

para a “Democracia” do que o padre sem bata,

o padre sem religião vulgar,

 o padre ideologicamente equipado e democrático,

pregando a criação e a invenção de um Deus.”

V. I. Lenin[2]

 

Um dos mais brilhantes aspectos da obra teórico-doutrinária, político-prática e estratégico-revolucionária de Lenin constitui, inegavelmente, sua magistral compreensão da necessidade de construção de um partido proletário marxista-revolucionário de massas e de vanguarda, dirigido preponderantemente por revolucionários profissionais e trabalhadores conscientes jovens, assentado sobre o princípio organizativo do centralismo democrático, a fim de que se torne efetivamente materializável, na época do imperialismo capitalista, marcado por regimes oligárquico-burgueses à maneira de autocracias, a perspectiva formulada originariamente por Marx e Engels de derrubada violenta de toda exploração sócio-econômica e dominação intelectual-ideológica, geradas inevitavelmente pela subsistência das decrépitas leis internas inerentes ao despotismo do capital e do latifúndio[3].

 

Apoiando-se, de modo principista, na concepção partidária de Marx e Engels[4], Lenin destaca que a organização marxista-revolucionária do proletariado, enquanto vanguarda campeã e independente das lutas proletárias para a derrubada do jugo do imperialismo capitalista em todo o mundo – erigida, em escala nacional, enquanto partido político independente da classe trabalhadora, revestido de designação rigorosamente apropriada e cientificamente correspondente ao estágio efetivo da luta de classes de certo período histórico[5] -, é parte integrante da classe trabalhadora e, em verdade, sua parte mais avançada, mais dotada de consciência de classe e, portanto, mais revolucionária, sendo formado por métodos de seleção natural que reunem os melhores, os mais conscientes, os mais sacrificados e os mais perpicazes trabalhadores de dada sociedade[6].

 

Essa organização não possui interesses distintos da classe trabalhadora, considerada como um todo, diferenciando-se, porém, dessa última particularmente porque possui uma visão ampla e geral de toda a trajetória histórica da classe trabalhadora em sua totalidade e luta, a todo momento, para defender não os interesses de um grupo ou segmento específico, mas sim da classe trabalhadora em seu conjunto.

 

Assim, para Lenin, a organização marxista-revolucionária do proletariado é, em seus mais diversos estágios, períodos e momentos históricos, é a alavanca organizativa e política através da qual a parte mais avançada da classe trabalhadora pode dirigir toda a massa proletária e semi-proletária em sua luta de libertação em face do capital e do latifúndio. 

 

Assim, enquanto traço especialíssimo da concepção organizativa de Lenin, destaca-se sua defesa do centralismo democrático enquanto método capaz de permitir a construção de uma organização marxista-revolucionária dirigente, hábil a intervir, com inigualável arte e talento prático-revolucionários, enquanto o estado-maior tático e estratégico das lutas de libertação do proletariado russo e seus aliados.

 

O perecimento dessa organização há de ser apenas alcançado no âmbito da vitória final do comunismo, com a sua respectiva reabsorção no seio da sociedade mundial trabalhadora, despida da existência das classes sociais e da exploração do homem pelo homem e das nações por nações.

 

Nesse sentido, a concepção de Lenin sobre a imprescindibilidade da existência histórica da organização marxista-revolucionária pode ser clarificada e sintetizada nas seguintes palavras :

 

“A necessidade do partido político do proletariado pode apenas deixar de existir com o surgimento da completa abolição das classes.

Na trilha rumo a essa vitória final do comunismo, é possível que a importância relativa das três organizações fundamentais proletárias dos tempos modernos – Partido, Sovietes e Sindicatos da Indústria – possa transitar por algumas modificações e, gradualmente, seja formada um único tipo de organização dos trabalhadores.

Entretanto, o Partido Comunista será absorvido na classe trabalhadora apenas quando o comunismo deixe de ser objeto de luta e toda a classe trabalhadora tenha se tornado comunista.”[7]

 

As vitórias que conduziram ao Outubro de 1917 e dela decorreram foram factíveis, em primeiro lugar, porque Lenin soube desenvolver, incansavelmente e com agudeza de espírito, a dialética no trato da teoria científico-socialista de Marx e Engels[8], compreendendo que os proletários, por não poderem, por seus próprios esforços, atingir senão uma consciência sindical-econômica mais ou menos nítida – em cujo quadro prevalece, então, inevitavelmente a dominação ideológico-burguesa, historicamente mais sólida, complexa e opulenta -, necessitam do partido marxista-revolucionário para transformarem em consciência toda a sua intuição acerca das novas tarefas que envolvem a luta revolucionária de edificação do socialismo[9].

 

Assim como Engels, Lenin destacou que o socialismo, uma vez tornado ciência, exige ser tratado como tal, i.e. deve ser sistematicamente estudado, tudo dependendo de se propagar, com zelo crescente, entre as massas trabalhadoras a visão cada vez mais clarificada da luta socialista, fundindo, encadeando, unindo (zusammenschliessen), sempre mais firmemente, partido revolucionário e organizações sindicais[10].

 

A forma histórico-dialética a ser conferida à fusão, ao encadeamento, à união entre partido revolucionário, parte mais avançada e dirigente da classe trabalhadora, e organizações sindicais, escolas de aprendizado da luta revolucionária pela derrubada do capitalismo e edificação de uma sociedade sem classes - ainda que assumindo diferentes configurações específicas ao longo dos diversos anos de militância revolucionária de Lenin que, progressivamente, a partir de 1907, superaram sua posição inicial, também esposada por Plekhanov, favorável à neutralidade dos sindicatos[11], aproximando-se cada vez mais das concepções de Marx e Engels acerca do tema[12]  – pode ser sinteticamente definida nos seguintes termos que expressam sua visão mais madura :

 

“Minhas concepções sobre esse tema (EvM.: i.e. sobre a questão da luta econômica e os sindicatos) tem sido freqüentemente distorcidas na literatura e devo, portanto, destacar que muitas páginas de “O Que Fazer?” são dedicadas a esclarecer a imensa importância da luta sindical e dos sindicatos.

Em particular, defendi a neutralidade dos sindicatos e não modifiquei essa concepção em brochuras e artigos jornalísticos redigidos desde então, a despeito de numeros asserções de meus oponentes.

Apenas o Congresso do POSDR de Londres e o Congresso Internacional Socialista de Stuttgart forçaram-me a chegar à conclusão de que a neutralidade dos sindicatos não pode, de modo principista, ser defendida.

O único princípio correto é o alinhamento mais estreito possível dos sindicatos com o Partido.

Nossa política deve ser a de trazer os sindicatos mais próximos do Partido, ligando-os a ele.

Essa política deve ser perseguida perseverante e persistentemente em toda nossa propaganda, agitação e atividade organizativa, sem tentar obter mero “reconhecimento” de nossas concepções e sem excluir dos sindicatos aqueles que possuem opiniões diferentes.”(grifos do próprio Lenin)[13]       

 

“A luta do proletariado internacional é está conduzida não em prol da reforma do capitalismo, mas sim pela sua derrubada.

Nessa luta revolucionária, todos os elementos revolucionários dotados de consciência de classe estão reunindo-se, cada vez mais resolutamente, entre as fileiras da III Internacional, enquanto organização incorporadora da revolução proletária mundial.

Os sindicatos da Rússia que, lado a lado com o Partido Comunista lutam pela derrubada do capitalismo na Rússia, não podem permanecer fora das fileiras da III Internacional e, portanto, o III Congresso dos Sindicatos resolve :

1. aderir à III Internacional Comunista e conclamar os sindicatos revolucionários de todos os países a seguirem o exemplo praticado pelo proletariado russo, organizado nos sindicatos.”[14]

 

“Os sindicatos que aceitaram a plataforma comunista e estão unidos em escala internacional sob o controle do Comitê Executivo da Internacional Comunista formam a Seção Sindical da Internacional Comunista.

Os Sindicatos Comunistas enviam seus representantes aos Congressos Mundiais da Internacional Comunista através dos Partidos Comunistas de seus respectivos países.

As Seção Sindical da Internacional Comunista elege um delegado que terá voto deliberativo junto ao Comitê Executivo da Internacional Comunista.

O Comitê Executivo da Internacional Comunista goza do direito de enviar um representante com voto deliberativo para a Seção Sindical da Internacional Comunista.”[15]

 

Lenin planejou, organizou, formou, construiu e impulsionou um partido marxista-revolucionário dirigente de massas, democraticamente centralizado e largamente isento de traços burocráticos degeneradores.

 

Seu partido apoiou-se crescentemente na práxis revolucionária de Babushkin e Sverdlov[16], consagrou articulistas revolucionários do calibre de Vorovsky[17], bem como deu vida a brilhantes órgãos jornalísticos, legais e clandestinos – tais como ”Iskra(A Centelha)”, “Vperiod!(Avante!)”, “Proletarii(O Proletário)”, “Zvezda(A Estrela)”, “Rabotchaia Gazeta (Diário Operário)”, “Pravda(A Verdade)”, “Soldatskaia Pravda(A Verdade do Soldado)” etc. etc., concebidos eles mesmos como organizadores, propagandistas e agitadores coletivos da dialética do marxismo revolucionário[18]-, constituindo-se, a partir de fins de 1903, em fração pública bolchevique no interior do POSDR, transformando-se, no início de 1912, como partido integral e irreversivelmente rompido com o oportunismo e o liquidacionismo de todos os signos, em POSDR – Bolchevique[19].

 

Apenas com a derrubada do capitalismo pela via revolucionário-insurrecional da luta de classes, hegemonizada pelo proletariado no quadro de uma coalizão selada com seus mais autênticos aliados históricos, explorados e oprimidos pelo capitalismo, apenas com o despedaçamento do aparelho do Estado colocado a serviço das ínfimas minorias exploradoras e opressoras, autocráticas, latifundiárias e burguesas, resulta, pois, aberta a via de transição à Ditadura Revolucionária do Proletariado, incorporadora da mais ampla e historicamente mais avançada Democracia Proletária, rumo ao atingimento de uma sociedade socialista mundial humanizada, livre da opressão de todo Estado e imune às dilacerações decorrentes dos embates sangrentos, travados entre classes sociais irreconciliavelmente hostis : primeiro estágio para o estabelecimento de relações sociais autenticamente comunistas.

 

De tal sorte, é possível corretamente afirmar que, para tornar-se profícuo e eficaz o conteúdo da presente exposição, dedicada ao funcionamento da organização marxista-revolucionária da atual época do imperialismo capitalista, cumpre assumir, desde logo, como paradigma analítico, a efetuação de um estudo senão pormenorizado ao menos detido e conclusivo, voltado sobretudo ao exame dos principais congressos e conferências em que participaram os bolcheviques, dirigidos por Lenin, bem como efetuar uma análise das principais disposições programáticas, estatutárias e posturas fracionais, por eles defendidas ou repudiadas.

 

Nada obstante, as questões relacionadas com movimento revolucionário contemporâneo são, em muitos sentidos, intrincadas e para muitos desinteressantes, na medida em que pressupõem dedicação e atenção detidas para problemas relacionados com a disciplina e o regime de funcionamento da organização marxista-revolucionária, seus programas, seus estatutos, sua direção e seu sistema de frações, o qual conduz inevitavelmente ou a reunificações ou a rupturas organizativas.

 

O presente texto procurará demonstrar ao leitor que a luta ferrenha e ininterrupta, travada ao longo de décadas, pela organização marxista-revolucionária paradigmática de Lenin e dos bolcheviques contra as múltiplas vertentes sociais-reformistas, sociais-chauvinistas, sociais-colaboradoras, sociais-pacifistas, em suma: todas essas espécies de oportunismos ordinários e biliosos, vestidos disfarçadamente em togas socialistas, assumiu diversas formas, projetou-se em diversos contextos e prolongou-se ao longo de diversos episódios, tendo como centro de gravidade a trilogia envolvendo a luta em prol do programa, estatuto e direção cientificamente revolucionários do partido da classe trabalhadora.

 

Ao longo de toda sua extensa trajetória combativa, dedicada à construção de uma organização partidária marxista-revolucionária, na Rússia e em escala mundial, no quadro de uma Internacional Revolucionária, Lenin foi sempre categórico em demonstrar, perene e sistematicamente, a vital importância que assume  a luta pela defesa dos princípios da unidade do partido da classe trabalhadora rumo à Revolução Proletária Socialista – cuja expressão máxima é a realização regular de seus congressos e conferências – e do centralismo democrático – imprescindível esse último para a deliberação e legitimação do programa, do estatuto e da direção revolucionários do proletariado, bem como de seu plano estratégico e de sua linha tática, direcionados para a derrubada de toda exploração e dominação de classe.  

 

Enquanto corolários desses princípios maiores, Lenin ressaltou, ainda, com meridiana clareza, a imperiosidade de os marxistas-revolucionários lutarem, invariavelmente e a todo momento, em favor da efetiva preservação dos direitos da minoria e de toda oposição leal, exercidos tendencial ou fracionalmente no interior do partido marxista-revolucionário, e, nesse contexto, em igual medida, sempre em prol da autonomia de todo e qualquer organismo partidário.

 

Defendendo ainda a preponderância do reconhecimento dos corolários de elegibilidade, prestação de contas e revogabilidade dos membros dos órgãos centrais e quadros profissionais do Partido, Lenin demonstrou ser, ao mesmo tempo, imprescindível posicionar-se, constantemente, em favor do direito de o Comitê Central nomear e destituir a Redação do Órgão Central do Partido.

 

Sem qualquer temor de permanecer em minoria ou de modo até mesmo isolado, sem qualquer receio de resultar derrotado ou ser tachado de excêntrico no quadro do movimento revolucionário russo e internacional, combateu todas as diversas vertentes políticas que fomentavam direta ou indiretamente o socialismo pequeno-burguês e utópico, o terrorismo populista, o espontaneísmo criticista, o economicismo sindicalista, o reformismo social,  o inorganicismo menchevique-partidário, a subalternidade ou o isolacionismo do proletariado na revolução em face do campesinato e da burguesia, o liquidacionismo do partido legal e clandestino, o eleitoralismo estatal-democratista, quer de linhagem chauvinista, quer de índole pacifista, como meios supostamente viáveis de atingir-se a vitória nas revoluções proletárias e o início da construção de uma sociedade socialista[20].

 

Com efeito : desmascarando sempre com palavras simples e contundentes, não apenas os sociais-oportunistas de todos os matizes situados fora, mas também protagonizando resolutamente tendências, frações e rupturas contra bolcheviques sectário-abstencionistas, eclético-conciliadores, komitetchik-burocratizados situados dentro do próprio partido revolucionário, como forma de depurar, fortalecer e aprimorar o instrumento orgânico de preparação e direção das lutas do proletariado contra a selvageria do capital e do latifúndio, é que Lenin foi capaz de defender prática e inabalavelmente o princípio maior da unidade do partido revolucionário proletário, fundado na rigorosa observância do centralismo democrático, exercido em congressos, conferências, comitês, células distritais e fabris, regularmente operantes e ocupados não exclusivamente com discussões sobre regras organizativas internas, mas sobretudo com o exercício concreto da apreciação marxista dos novos fatos objetivos e definição de tarefas revolucionárias atualizadas, com base em informações específicas sobre funções desempenhadas e a desempenhar no cenário da luta de classes.[21]

 

Nesse preciso contexto, estimulou, paralela e constantemente, processos de fusão das forças bolcheviques com novos agrupamentos combativos que, em dado momento histórico, regressaram ao legítimo sendeiro da revolução proletária.

 

Entendendo que um partido marxista-revolucionário não pode ser erigido sem a mais perfeita e fiel clareza acerca dos matizes essenciais nele existentes, sem luta aberta entre suas várias tendências, sem informar as massas sobre que dirigentes e agrupamentos partidários perseguem essa ou aquela linha política em dado momento histórico[22], salientando, porém, a importância da disciplina de ferro do partido proletário enquanto forma de combater a desorganização e definindo-a como unidade da ação revolucionária, liberdade de discussão e criticismo – sendo apenas essa disciplina digna de um partido democrático da classe avançada[23] -, a concepção de vida político-partidária de Lenin veio a revelar-se como sendo o oposto diametral do monolitismo cripto-partidário de Stalin e seus asseclas, praticado a pretexto de impulsionarem a “bolchevização” dos partidos da Internacional Comunista, logo após o desaparecimento de Lenin, em 1924. 

 

Esforçando-se sempre por compreender a dialética da luta de classes, mantinha-se permanentemente aberto e atento à dinâmica da vanguarda do proletariado e das massas em movimento, às quais atribuía até mesmo mais importância do que ao rotineiro funcionanento do aparato administrativo do Partido, transmitindo, assim, muito sensivelmente a influência das lutas proletárias sobre o Partido e desse último sobre o seu aparato.

 

Desse modo, Lenin conseguia fazer com que seus opositores perdessem terreno rapidamente e os hesitantes, aderissem ao seu agrupamento, tendência ou fração, com perdas consideravelmente reduzidas para a causa proletário-revolucionária, superando as exigências do fator tempo em matéria político-revolucionária, em cujo domínio a luta de classes não pode esperar indefinidamente que os marxistas revolucionários descubram o modo correto de responder às questões mais prementes da revolução proletário-socialista.

  

Destacando o aspecto de que o dirigente genial do proletariado contribui efetivamente para que o prazo de aprendizagem dos revolucionários seja substancialmente reduzido, mediante a elucidação de lições objetivamente formuladas, permitindo, assim, à organização marxista-revolucionária influir decisivamente no desenvolvimento dos acontecimentos no momento apropriado, Trotsky assinalou, detidamente, o seguinte acerca das características de atuação política de Lenin:

 

“Todas as vezes que os dirigentes do bolchevismo tinham de atuar sem Lenin incorriam em erro, inclinando-se, comumente, para a direita.

Então, surgia Lenin com um Deus Ex Máquina e indicava o caminho correto.

Significa isso dizer que Lenin fosse tudo dentro do Partido Bolchevique e os demais nada?

Tal conclusão, muito presente nos círculos democráticos, é sumamente parcial e, por isso, falsa.

O mesmo se poderia dizer da ciência. A mecânica sem Newton e a biologia sem Darwin pareceram nada representar, durante muitos anos.

Isso é certo e errado, ao mesmo tempo : reprime-se o trabalho de milhares de pessoas simples da ciência, reunindo fatos, agrupando-os, levantando os problemas, preparando o terreno para as soluções inteligentes de um Newton ou um Darwin.

E, toda solução implicava, por sua vez, o trabalho de outros milhares de pesquisadores modestos.

Os gênios não criam a ciência.

Apenas aceleram o processo de reflexão coletiva.

O Partido Bolchevique tinha um dirigente de gênio e não por acaso.

Um revolucionário com a fibra e a resolução de Lenin podia tão somente estar à cabeça do partido mais intrépido, capaz de levar suas idéias e ações à sua conclusão lógica.

Porém, o gênio é, em si mesmo, a mais rara das exceções.

Um dirigente genial orienta-se mais rapidamente, aprecia a situação mais plenamente, enxerga mais além do que os outros. (...)

Sem o Partido, Lenin ter-se-ia visto tão desvalido como Newton e Darwin sem o trabalho científico coletivo.

Por consequinte, não se trata de efeitos especiais inerentes ao bolchevismo, produto provável da centralização, disciplina etc., senão do problema do gênio dentro do processo histórico.

Os escritores que intetam desacreditar o bolchevismo com base em que o Partido Bolchevique teve a sorte de contar com um dirigente genial, nada fazem senão confessar sua própria vulgaridade mental.”[24]

 

Permanecendo sempre muito distante de ser adulado pela grei de todos os que alegadamente se reivindicavam como autênticos porta-vozes e defensores da causa dos trabalhadores, Lenin prestou com sua atividade perseverante e sagaz um valioso exemplo para a luta inquebrantável a ser impulsionada pelos marxistas revolucionários não apenas contra os paredros do oportunismo e do ecletismo teórico-politico, senão também contra os corifeus do indiferentismo crítico e do relaxamento organizativo, em questões relacionadas com as perspectivas de novos Outubro Revolucionários.  

 

Demonstrou que o partido revolucionário não pode cumprir jamais o seu papel histórico embriagando-se em suas próprias vitórias, deixando de reconhecer as deficiências de seu trabalho de ligação com as mais amplas massas trabalhadoras, proletárias e não proletárias, temendo tratar de seus erros e debilidades, renunciando a corrigí-los resolutamente e negando-se a dizer às massas revolucionárias o pleno conteúdo da verdade, em todas as circunstâncias, fornecendo-lhes respostas concretas a seus problemas concretos[25].

 

Em sua concepção, a educação efetiva das massas lutadoras não pode assumir jamais caráter escolástico ou acadêmico - o qual as desmoraliza e lhes insufla preconceitos burgueses-liberais, sociais-reformistas e classistas-colaboracionistas acerca da mitologia moderna das Deusas da Justiça, Igualdade e Fraternidade -, mas sim deve estar sempre integrada à sua própria luta política independente e especialmente revolucionária, posto que apenas essa é capaz de realmente formar as classes exploradas e oprimidas, desvendando-lhes a magnitude de seu próprio poder, estimulando suas habilidades e  forjando sua vontade revolucionária[26]. 

 

Por sua vez, o partido marxista-revolucionário deve aprender a descobrir, estimular, promover, dinamizar o enorme talento prático-organizativo possuído pelas próprias massas lutadoras, impedindo resolutamente que o capital e o latifúndio o golpeie, destruindo-o completamente[27].

 

Além disso, Lenin destacou serem os heróis da revolução socialista não os lutadores combatentes dos livros de ficção, mas sim os seres humanos vivos e intrépidos que, dedicando toda a sua vida à estratégia proletária historicamente revolucionária, cumprem, com energia e coragem, seu específico papel de luta, conscientes de que a tarefa colocada sob sua responsabilidade, por mais modesta e insignificante que possa eventualmente aparentar ser, possui toda sua extraordinária importância enquanto elo individual de conexão, imprescindível para o funcionamento eficiente de toda grande e vasta cadeia de forças marxistas-revolucionárias que se movem rumo à vitória da Revolução Socialista Mundial[28].   

   

No quadro de suas mais impiedosas lutas fracionais contra o social-reformismo, o social-chauvinismo, o social-pacifismo, conciliacionismo virtuoso, o oportunismo e o sectarismo de todos os matizes, Lenin posicionou-se sempre, resolutamente, em favor da concepção de que é imprescindível combinar, necessariamente, as formas legais com as formas ilegais de luta e participar, incondicionalmente, até mesmo dos parlamentos e sindicatos reacionários, bem como atuar nas fileiras de outras instituições amarradas a leis reacionárias das classes exploradoras e dominantes, enquanto não se possa cogitar da organização, preparação e deflagração de uma Insurreição Armada Proletária para a derrubada violenta do capitalismo imperialista e seus aliados[29].

 

Precisamente no acatamento desses princípios e corolários organizativos, na sua mais efetiva e resoluta implementação prática, Lenin contemplou a existência de garantias contra cisões e rupturas partidárias injustificadas, contra a formação de frações públicas oportunistas, permanentes ou virtualmente permanentes,  permitindo-se, assim, o impulsionamento de autênticas lutas teórico-ideológicas, político-programáticas, orgânico-estatutárias, estratégico-contextuais e tático-conjunturais, no quadro da mais rigorosa unidade organizativa, dotada da mais estrita e resoluta subordinação de todos os revolucionários às resoluções congressuais-partidárias[30].

 

Enquanto suprema estratégia de luta, formulada no contexto da época das modernas revoluções socialistas do proletariado do século XX, a tarefa de edificação de um partido proletário marxista-revolucionário, apto a conduzir a Revolução Socialista à vitória, seja em escala nacional, seja em escala internacional, veio a ser preponderantemente equacionada por Lenin e por ele conseqüentemente direcionada, tendo como antípoda direto as formas organizativas adotadas e fomentadas então pelos partidos da II Internacional Socialista, programaticamente degenerados em sentido social-reformista e organizativamente afrouxados em sentido oportunista, de modo inteiramente irreversível, sobretudo após a morte de Friedrich Engels, em 1895.

 

Diante disso, tal como se verá adiante, Lenin manejou a dialética de Marx e Engels sobretudo contra sua degeneração sofístico-metafísica, destituída de conteúdo revolucionário, promovida não apenas pelos próceres do socialismo da colaboração de classes nacional-chauvinista (no estilo Scheidemann, Plekhanov etc.), reformista-pacifista (Bernstein, Martinov) e paficista-democrático (Kautsky, Martov), mas também por renomados bolcheviques frente-populistas e defensistas da pátria burguesa reacionária na guerra imperialista (Stalin, Kamenev, Rykov), opositores declarados do método da insurreição armada socialista para a destruição do Estado Burguês e edificação da Ditadura Revolucionária do Proletariado (Kamenev, Zinoviev, Lunatcharsky, Riazanov), conciliadores de bolcheviques insurrecionais com antípodas da insurreição (Stalin, Miliutin, Sokolnikov), antagonistas da formação de um governo revolucionário exclusiva ou hegemonicamente bolchevique (Lunatcharsky, Kamenev, Riazanov), propugnadores do esquerdismo comunista, contrário ao defensismo da pátria socialista na Guerra Civil e Revolucionária com forças armadas proletárias realmente existentes e aptas a impulsioná-lo (Bukharin, Radek, Kollontai). 

 

À luz de tudo isso, sem perder de vista, porém, a extraordinária importância histórica adquirida pela organiuzação marxista-revolucionária concebida, organizada e dirigida por Lenin, Trotsky formulou o seguinte juízo crítico e perpicaz, condizente com sua imensa experiência revolucionária, desenvolvida do movimento proletário-revolucionário russo e imprescindível para todo estudo a ser empreendido relativamente ao tema em tratamento :

 

“Não se deve esquecer que a máquina política do Partido Bolchevique era composta principalmente pela intelectualidade, de origem e ambiente pequeno-burguês e marxista em suas idéias e relações com o proletariado.

Os trabalhadores que passavam a ser revolucionários profissionais uniram-se àquele grupo com muito entusiasmo e, dentro dele, perderam sua identidade.

A estrutura social peculiar da máquina do Partido e sua autoridade sobre o proletariado (ambas nada acidentais e sim ditadas por estrita necessidade histórica) foram, mais uma vez, causa da vacilação do Partido e, finalmente, converteram-se na origem de sua degeneração.

O Partido insistia na doutrina marxista que expressava os interesses históricos do proletariado em seu conjunto.

Porém, os seres humanos da máquina do Partido assimilavam apenas medidas dispersas de tal doutrina, em conformidade com sua própria experiência, relativamente limitada.

Tal como Lenin se lamentava, aprendiam mecanicamente, muitas vezes, apenas fórmulas feitas de antemão e fechavam os olhos às mudanças de situação.

Na maioria dos casos, tinham carência de diário contato independente com as massas operárias, bem como de apreciação compreensiva do processo histórico.

Assim, ficavam expostos à influência das outras classes

Durante a guerra, os próceres do Partido viram-se seriamente afetados por tendências colaboracionistas, emanadas de círculos burgueses, enquanto que os trabalhadores bolcheviques da base demonstravam uma estabilidade muito mais sólida para resistir ao histerismo patriótico que se propagava por todo o país .”[31]  

 

CAPÍTULO 1.

I CONGRESSO DE 1898

DO PARTIDO OPERÁRIO SOCIAL-DEMOCRÁTICO RUSSO (POSDR):

UM CONGRESSO FUNDACIONAL COM

TENTATIVA DE UNIFICAÇÃO,

DESPIDA DE PROGRAMA E DE ESTATUTO PARTIDÁRIOS

 

A tarefa estratégica de unificação dos inúmeros círculos e grupos russos, ativamente atuantes já no fim do século XIX, em um partido proletário marxista-revolucionário unificado foi, pela primeira vez, examinada por Lenin em seu trabalho intitulado “O que são os Amigos do Povo e como lutam contra os Sociais-Democratas”, vindo a público em 1894[32].

Já nessa sua obra, paralelamente à sua impiedosa crítica desferida contra a ideologia do terrorismo populista da “Vontade do Povo”, Lenin defendeu e desenvolveu os fundamentos mais essenciais do marxismo revolucionário e destacou que os marxistas russos deveriam, enquanto tarefa primordial de cunho organizativo, articular, a partir dos diversos círculos e grupos marxistas, um partido proletário combativo.

A fundação por Lenin da Liga de Luta para a Libertação da Classe Trabalhadora”, em 1895, representou o primeiro autêntico embrião de organização revolucionário-proletária na Rússia, cuja atividade foi manifestamente orientada para a unificação das forças marxistas do movimento dos trabalhadores daquele país.

Ainda em 1895 e 1896, encontrando-se na prisão, Lenin elaborou o primeiro Projeto de Programa do POSDR[33]. Em fins de 1897, já em seu exílio na Sibéria, redigiu a obra de caráter essencialmente programático intitulada “As Tarefas dos Sociais-Democratas Russos”, surgida, a seguir, em 1898[34].

Entretanto, a prisão e o exílio de Lenin e dos principais dirigentes de sua Liga de Luta impediram, de fato, nesse momento, o impulsionamento de adequada convocação para a realização de um amplo congresso da nova organização social-democrática russa em gestação.

Assim, em março de 1898, reuniu-se, então, o I Congresso do POSDR,  encontrando-se Lenin ainda em seu exílio siberiano, não podendo, pois, dele participar pessoalmente.

Esse I Congresso realizou-se em condições de clandestinidade, entre os dias 1° e 3 de março de 1898, na cidade de Minsk, na Bielorússia.

Nele estiveram presentes 9 delegados, representativos de 6 organizações diferentes, a saber : 4 delegados procediam respectivamente da “Liga de Luta para a Libertação da Classe Trabalhadora” de Petersburgo, Moscou, Ekaterinburgo e Kiev, 2 delegados provinham do grupo “Jornal Operário”, de Kiev, e 3 delegados representavam os sociais-democratas judeus do “Bund”.

O I Congresso foi a primeira tentativa de unificação de círculos e grupos marxistas em um autêntico partido proletário russo, sob o princípio da defesa do Direito da Auto-Determinação das Nações Oprimidas.

Ele não foi capaz, entretanto, de deliberar acerca da aprovação de um Programa Revolucionário e de um Estatuto Partidário. Sua questão fundamental estava relacionada, antes de tudo, com a tarefa de fundação de um novo organismo revolucionário-proletário unitário.

Nesse sentido, o I Congresso deliberou operar a unificação das forças locais da Liga de Luta, do Jornal Operário e do Bund em uma única organização social-democrática que veio a ser denominada “Partido Operário Social-Democrático Russo (POSDR)”.

Proclamando dessa maneira preponderantemente fático-organizativa, a fundação do “Partido Operário Social-Democrático Russo (POSDR)”, o I Congresso elegeu um Comitê Central, composto de três membros, cada qual representativo das três organizações em processo de unificação, e incumbiu esse organismo central de elaborar um “Manifesto do POSDR”, em nome do congresso.

No manifesto em referência postulou-se a tarefa de tomada do poder político pelo proletariado, omitindo-se, entretanto, a estratégia marxista-revolucionária de luta pela conquista da hegemonia por essa classe revolucionária em face de seus aliados socialmente oprimidos, no quadro da luta contra a autocracia imperial-czarista, o latifúndio e o capital.

Além disso, o I Congresso declarou ser o “Rabotchaia Gazeta (Jornal Operário)”, editado na cidade de Kiev, o órgão oficial do POSDR, ao mesmo tempo em que confirmou a “Liga dos Sociais-Democratas Russos no Exterior” enquanto sua representação internacional.

Em decorrência da prisão dos membros do recém-fundado Comitê Central do POSDR logo após o encerramento dos trabalhos congressuais e por força do fechamento da tipografia de seu órgão oficial, tornou-se impossível impulsionar concretamente as tarefas deliberadas, sendo, assim, praticamente suspensas suas atividades.

O I Congresso não logrou, pois, consolidar efetivamente a unificação pretendida e, muito menos, estabelecer um centro de conexão entre as diversas organizações locais sociais-democráticas. Também depois dos trabalhos congressuais, os comitês partidários locais permaneceram preponderantemente isolados, sem consideráveis ligações mantidas entre uns e outros. A partir das deliberações congressuais, foi viabilizada, entretanto, a dinamização de diversas atividades de propaganda revolucionária.

Entrementes, a fermentação e o latejar da luta de classes, intensificados no período posterior à realização do I Congresso, impulsionaram a expansão do movimento revolucionário russo.

Por todos os lados, levantava-se a questão acerca da fundação de uma efetiva organização marxista-revolucionária, dirigente e combativa, disciplinada por programa e estatuto revolucionários, norteada por estratégia e tática de luta unitárias, capaz de clarificar o cenário de desorientação das lutas proletárias e conferir um decisivo golpe mortal ao “economismo” oportunista, que, então, penetrava no seio das organizações dos trabalhadores russos.

No segundo trimestre de 1900, um papel decisivo na luta em prol de uma eficaz criação do partido proletário marxista-revolucionário na Rússia foi desempenhado pelo jornal “Iskra (A Centelha)”, projetado riado e  organizado por Lenin, contando com a colaboração redacional de Martov, Plekhanov, Axelrod, Potressov e Zassulitch, permeada muitas vezes por choques e atritos em importantes domínios das atividades revolucionárias marxistas[35].

“Iskra (A Centelha)” foi o principal responsável pela propulsão do processo de unificação e construção seja doutrinário, seja político, seja ainda organizativo do novo POSDR.

No quadro da I Conferência do POSDR (Conferência Preliminar), ocorrida em Genebra, em junho de 1901, adotou-se uma resolução contendo os princípios fundamentais de um acordo para a ação conjunta de todas as forças sociais-democráticas russas.

Logo a seguir, na II Conferência do POSDR (Conferência da “Unidade”), ocorrida em Zurique, entre os dias 21 e 22 de setembro, intentou-se selar a unidade entre as 5 (cinco) mais importantes organizações sociais-democráticas operárias russas, com base em princípios inquestionalmente marxistas-revolucionários[36].

Dessa conferência participaram, com efeito, as seguintes organizações, fazendo-se representarem por seus principais dirigentes no exterior : “Iskra (A Centelha) – Zaria(A Aurora)” – representada por Lenin e Martov -; “Sotsial-Demokrat (O Social-Democrata)” – surgida em maio de 1900 e representada por Plekhanov e Axelrod, enquanto principais dirigentes do “Grupo de Emancipação do Trabalho” –; “Borba (A Luta)” – surgida em 1900-1901, em Paris, e representada por Riazanov, Steklov e I. Smirnov -, além da União dos Sociais-Democratas Russo no Exterior – fundada em 1894 por Plekhanov e com ele rompida em abril de 1900 – e o Bund.       

O processo de aproximação entre as organizações referidas foi, entretanto, abruptamente interrompido, quando artigos dos principais dirigentes da União dos Sociais-Democratas Russo no Exterior, publicados em Rabotcheie Dielo Nr. 10, de setembro de 1901, e suas propostas de emendas e adendos às resoluções a serem adotadas, demonstraram nitidamente que essa organização afastara-se substancialmente do marxismo revolucionário.

Assim, Lenin e Plekhanov, após a leitura de uma declaração de protesto e denúncia, abandonaram, resolutamente, a II Conferência do POSDR (Conferência da “Unidade”).     

Sob a iniciativa de Lenin,  “Iskra (A Centelha) – Zaria(A Aurora)” e “Sotsial-Demokrat (O Social-Democrata)” vieram a cerrar fileiras, em outubro de 1901, dando vida à “Liga da Social-Democracia Revolucionária Russa no Exterior”.

No quadro desse complexo processo histórico, o regime fundamental de funcionamento da organização marxista revolucionária na atual época do imperialismo capitalista, enquanto partido proletário-revolucionário de novo tipo, foi aprimorado por Lenin em seus magníficos trabalhos, produzidos ao longo de 1901 e 1902, intitulados “Com o que Começar?”, “O Que Fazer?” entre outros[37], e, então, apreciado no quadro do II Congresso do POSDR, realizado entre os dias 17 de julho e 10 de agosto de 1903.

 

CAPÍTULO 2.

II CONGRESSO DE 1903 DO POSDR :

PROGRAMA E DIREÇÃO REVOLUCIONÁRIOS

 EM CONTRASTE COM UM ESTATUTO OPORTUNISTA,

EMERGÊNCIA DAS FRAÇÕES

INTERNAS BOLCHEVIQUE E MENCHEVIQUE

 

O II Congresso do POSDR realizou-se em condições de clandestinidade, entre 17 de julho e 10 de agosto de 1903, no exterior da Rússia, inicialmente na cidade de Bruxelas, na Bélgica, e, posteriormente, na cidade de Londres, na Grã-Bretanha.

Nele, fizeram-se representar 26 organizações, incluindo-se nesse número a organização de V. I. Lenin - agora convergindo em torno do jornal “Iskra (A Centelha)”, o “Grupo de Libertação do Trabalho” – encabeçado por G. V. Plekhanov -,   a “Liga Estrangeira da Social-Democracia Revolucionária Russa”, o “Liga dos Sociais-Democratas no Exterior”, o “Comitê Central e Estrangeiro do Bund”, o grupo “Sul da Rússia”, 14 comitês locais, 4 ligas sociais-democráticas e a “Organização Operária Petersburguense (Economistas)”.

Ao todo, estiveram presentes 43 delegados, dotados de 51 votos deliberativos, e 14 delegados, dotados de votos consultivos.

Cada uma das 26 organizações em tela possuía o direito de enviar ao Congresso dois delegados, porém algumas delas enviaram um único delegado, munido de dois mandatos.

A composição do II Congresso não era efetivamente homogênea.  

Os iskristas, i.e. os militantes do jornal Iskra (A Centelha) não intervieram, ao longo de todo o congresso, em perfeita unidade e sob o comando de uma única direção : além dos delegados encabeçados por Lenin  - i.e. 20 delegados, dotados de 24 votos -, encontravam-se presentes 7 delegados, munidos de 9 votos, que respondiam muito mais aos posicionamentos sustentados por Martov. Os centristas – ou o assim denominado “bolóto (pântano)” – possuíam 8 delegados, armados com 10 votos. Os declarados e abertos adversários dos iskristas detinham apenas 8 votos, entre os quais se contavam 3 adeptos do economismo e 5 membros do Bund. 

Os declarados e abertos adversários dos iskristas detinham apenas 8 votos, entre os quais contavam-se 3 adeptos do economismo e 5 membros do Bund. 

Na ordem do dia dos trabalhos do II Congresso do POSDR, elencaram-se os seguintes pontos :

 

1)    Formação do Congresso. Eleição do Bureau. Estabelecimento do Regulamento do Congresso e da Ordem do Dia. Relatório do Comitê Organizativo (CO) e Eleição da Comissão para Definição da Composição do Congresso.

2)    Posição do Bund no POSDR.

3)    Programa do Partido.

4)    Órgão Central do Partido.

5)    Relatórios dos Delegados.

6)    Organização do Partido. Estatuto do Partido.

7)    Organizações Regionais e Nacionais.

8)    Grupos Especiais do Partido.

9)    Questão Nacional.

10) Luta Econômica e Movimento Sindical.

11) Comemoração do 1° de Maio.

12) Congresso Socialista Internacional de Amsterdã de 1904.

13) Manifestações e Levantes. 

14) Terrorismo.

15) Questões Internas do Partido Operário.

a. Organização da Propaganda.

b. Organização da Agitação.

c. Organização da Literatura do Partido.

d. Organização do Trabalho entre os Camponeses.

e. Organização do Trabalho entre nas Forças Armadas.

f. Organização do Trabalho entre os Estudantes.

g. Organização do Trabalho entre os Seminaristas.

     16) Relação do POSDR com os Socialistas-Revolucionários(SRs.)

     17) Relação do POSDR com as correntes liberais russas.

     18) Eleição do Comitê Central e da Redação do Órgão

           Central(OC).

     19) Eleição do Conselho do Partido.

     20) Regime das Proclamações das Decisões e Protocolos do

           Congresso e, igualmente, Regime de Apresentação de

           Comunicados das Declarações das Pessoas e Órgãos

           Responsáveis Eleitos.

 

A despeito da ampla maioria iskrista, exercida no II Congresso nos debates dos primeiros pontos da ordem do dia, bastou que uma cisão se operasse entre eles, na apreciação do Ponto 6. Organização do Partido. Estatuto do Partido, produzindo dois agrupamentos distintos, encabeçados respectivamente por Lenin e Martov, para que esse último, Martov, com o auxílio dos centristas do pântano e dos abertos adversários das posições do Iskra (A Centelha), lograssem imprimir uma linha manifestamente oportunista, no domínio estatutário-organizativo do novo partido em efetiva formação.

Lenin e seus adeptos foram, em verdade, os únicos a desenvolver, ao longo dos trabalhos congressuais, uma luta conseqüentemente implacável e principista, seja contra o social-reformismo programático, seja contra o oportunismo organizativo, postulando, eficazmente, uma orientação essencialmente revolucionária para o novo partido russo, em todos os pontos previstos para compor a ordem do dia dos trabalhos congressuais.

Com efeito, Lenin, situado à cabeça das atividades do Iskra (A Centelha), havia impulsionado, anteriormente, um trabalho colossal de preparação do novo congresso, dinamizando a unificação dos círculos e grupos sociais-democráticos russos sobre a base dos princípios programáticos e estatutários, estratégicos e táticos de Marx e Engels.

A mais expressiva tarefa colocada diante do II Congresso do POSDR consistia, sem qualquer margem de dúvida, em criar um novo partido efetivamente atuante e essencialmente fundado nos princípios doutrinários e organizativos, postulados e difundidos pela direção leninista do Iskra (A Centelha).

Assim, a questão de maior dimensão elencada na ordem do dia do II Congresso do POSDR estava diretamente relacionada com o Ponto 3 da ordem do dia, pois, com a adoção do Programa do POSDR seria possível dotar-se a classe trabalhadora russa de um autêntico instrumento de luta marxista-revolucionário.

Nesse sentido, cumpre assinalar que o projeto de programa, apresentado ao congresso, foi aquele precisamente elaborado por Lenin e Plekhanov, em diametral oposição a todos os outros programas partidários de natureza essencialmente social-reformista, acolhidos então, em nível congressual, pelas mais diversas organizações filiadas a II Internacional Socialista.

Cumpre destacar, em letras garrafais, que esse mesmo II Congresso do POSDR acolheu, em seu Programa Partidário, redigido por Lenin e Plekhanov, categoricamente e pela primeiríssima vez na história do movimento mundial dos trabalhadores a consigna expressa da luta a ser deflagrada em prol da “Ditadura do Proletariado”, definida, então, enquanto sua conquista do poder político e como condição indispensável para a revolução social, fazendo-o em pleno contraste com os até existentes programas da Social-Democracia Alemã, bem como dos demais partidos da II Internacional Socialista[38].     

O referido projeto de programa de Lenin e Plekhanov era composto de duas partes essenciais, a saber :

 

Parte A. Programa Máximo. 

Parte B. Programa Mínimo.

 

Na Parte A. Programa Máximo, o projeto de programa dispunha acerca das tarefas centrais do partido revolucionário da classe trabalhadora, em sua luta pela Revolução Socialista, pela derrubada do poder dos burgueses e latifundiários e pela instauração da Ditadura Revolucionária do Proletariado, fase de transição para a edificação de uma sociedade socialista, sem classes e sem Estado.

Na Parte B. Programa Mínimo, o projeto do programa prescrevia as tarefas imediatas do partido, em sua luta pela derrubada da autocracia czarista-imperial, instauração de uma República Democrática, introdução da jornada de trabalho de 8 horas para os trabalhadores, erradicação de todos os resquícios de servidão no campo, devolução aos camponeses das terras que lhes haviam sido subtraídas pelos latifundiários.    

Essa última reivindicação programática haveria de ser, em seguida, modificada por Lenin e seus adeptos pela exigência de confiscação de todas as propriedades latifundiárias.

O projeto de programa de Lenin e Plekhanov foi visceralmente combatido pelos delegados bundistas e defensores do economismo.

Adversários da estratégia de luta marxista-revolucionária, contida no projeto de programa em referência, uns e outros insurgiram-se, em primeiro lugar, contra a formulação de consignas programáticas máximas de Revolução Socialista e Ditadura Revolucionária do Proletariado, alegando ser essa ditadura inteiramente incompatível com a natureza da democracia em geral e com os princípios adotados nos programas dos principais partidos da II Internacional Socialista.

Ao mesmo tempo, os delegados bundistas e adeptos do economismo exigiam permanecesse excluída do programa a questão camponesa, na medida em que não entreviam ser absolutamente necessária a luta pela constituição de uma aliança do proletariado com o campesinato.

Além disso, os delegados bundistas e diversos delegados poloneses, inspirados pelas concepções de Rosa Luxemburgo, opuseram-se ao acolhimento da consigna programática fundamental relativa à defesa do Direito de Auto-Determinação das Nações Oprimidas, menosprezando o fato de que precisamente essa consigna capacitava a classe trabalhadora e seus aliados a luta contra a opressão imperialista e assegurava a educação das massas proletárias no espírito do internacionalismo marxista-revolucionário.

Lenin interviu, por diversas vezes, no quadro do II Congresso, em defesa do projeto de programa.

No contexto de uma luta resoluta de todos os iskristas e alguns centristas do pântano foi obtida uma grandiosa vitória política : o II Congresso acolheu, por ampla maioria de votos, o seu primeiro programa partidário, precisamente em conformidade com a redação formulada por Lenin.

O Programa Revolucionário do POSDR em referência converteu-se na principal plataforma de luta da classe trabalhadora russa, nos anos subseqüentes.

Ele assegurou ao proletariado daquele país uma autêntica formação marxista-revolucionária e forneceu o denominador comum em torno do qual o POSDR uniu a classe trabalhadora, unificou-a com o campesinato e os demais oprimidos, em sua luta contra a autocracia, o latifúndio e o capital.

Precisamente esse Programa do POSDR, formulado segundo a redação de Lenin, permaneceu válido, em linhas gerais, até o VIII Congresso do Partido Comunista Russo (Bolchevique), ocorrido em 1919, em cuja ocasião foi adotado um novo programa, condizente com a novo contexto histórico.

Após a adoção do Programa do POSDR, o II Congresso em referência avançou rumo à análise do Projeto de Estatuto do Partido, o qual deveria assegurar uma efetiva resposta organizativo-revolucionária ao aventureirismo, ao inorganicismo e ao espírito de círculo, à desordem e à ausência de firme disciplina partidária.

Nos trabalhos do II Congresso do POSDR, Lenin interviu seja com a apresentação de seu informe sobre o Projeto de Estatuto, seja com dois pronunciamentos acerca do tema[39].

Em seu projeto, resultaram nitidamente ancorados os mais relevantes princípios do regime de funcionamento de uma organização marxista revolucionária na atual época do imperialismo capitalista, em cujo ápice situa-se o centralismo democrático das atividades do partido disciplinado e combativo.

O mais importante aspecto dos debates acerca da questão estatutária relacionou-se com a formulação do Parágrafo Primeiro do Estatuto, que definiu as condições de apartenência dos militantes revolucionários ao POSDR.      

A formulação de Lenin do Parágrafo Primeiro continha as seguintes disposições:

 

“1. É considerado membro do Partido aquele que aceita o Programa do Partido e apóia o Partido, seja com meios financeiros, seja com sua participação pessoal em uma das organizações partidárias.[40]

 

Essa formulação de Lenin foi apoiada não apenas por seus adeptos iskristas, senão ainda por Plekhanov. 

D’outro lado, opondo-se à redação desse parágrafo na forma retro-indicada, Martov formulou uma proposição de filiação partidária que, embora considerando o reconhecimento do programa e o apoio material enquanto condições indispensáveis à militância no POSDR, repudiava, abertamente, o critério de participação pessoal em uma das organizações partidárias.

Martov propunha que os membros – na sua peculiar dicção os filiados do POSDR -, poderiam, até mesmo, não possui participação em nenhuma das organizações partidárias.

Nesse sentido, defendeu que a condição de participação pessoal em uma dessas organizações fosse substituído pelo critério de realização de trabalhos sob o controle do Partido.

Assim, na versão de Martov, a redação do Parágrafo Primeiro do Estatuto haveria de assumir a seguinte forma :   

 

“I. Filiação ao Partido. -

1. Considera-se filiado ao Partido Operário Social-Democrático Russo todo aquele que, reconhecendo o seu programa, trabalha ativamente para executar suas tarefas, sob controle e direção dos órgãos do Partido.”[41]

 

A formulação de Martov foi, candentemente, defendida, naquela época, por seus adeptos iskristas, Axelrod, Zassulitch, Trotsky e por todos os demais delegados centristas do pântano, bundistas e adeptos do economismo.

Em contraste com a redação do Parágrafo Primeiro do Estatuto de Lenin, a proposição de filiação de Martov permitia, inexoravelmente, a mais ampla abertura das portas do POSDR a todos os elementos oscilantes e não proletários.      

Nessas diferentes formulações do Parágrafo Primeiro do Estatuto do POSDR encontram-se, em verdade, expostas, de maneira lapidar, duas concepções diametralmente opostas de organização de partidos da classe trabalhadora : a de Lenin, uma concepção genuinamente marxista-revolucionária, a de Martov, uma concepção essencialmente oportunista.

Lenin considerava o partido proletário como um destacamento revolucionário-orgânico, cujos membros não aderiam, por si mesmo, a ele, mas sim eram por ele admitidos para atuarem em uma de suas organizações partidárias, subordinando-se sempre à sua disciplina, ao passo que Martov entrevia o partido proletário como algo nem sempre claramente delineado em sentido organizativo, cujos membros a ele aderiam, por força de suas próprias vontades individuais, não estando obrigados a subordinar-se à qualquer disciplina partidária, enquanto não ingressassem em uma de suas determinadas organizações partidárias.

Fundando em sua concepção, Martov diluía todos e quaisquer limites discriminatórios entre o partido revolucionário e a classe trabalhadora, propondo conceder direito de filiação partidária a todo grevista e ativista político, que se declarasse a si mesmo como membro do partido e atuasse sob seu controle.

De modo inteiramente distinto, Lenin visualizava na organização marxista-revolucionária do proletariado o corpo de tropa avançado do proletariado, que unificava, em suas fileiras, os elementos mais conscientes, abnegados e disciplinados da classe trabalhadora.

Por essa razão, o partido haveria de sempre possuir conhecimento acerca do número de seus membros, estando consciente acerca do fato de ser composto apenas pela minoria do grande número de componentes do proletariado, considerado como um todo.

Precisamente nesse sentido, Lenin defendeu, em suas intervenções junto ao II Congresso acerca do Estatuto do POSDR, dever o partido representar apenas o centro dirigente, bem como o destacamento avançado e organizado das grandes massas da classe trabalhadora, as quais trabalhariam sim, em seu conjunto (ou em quase todo o seu conjunto), sob a direção e o controle das organizações partidárias, não podendo e não devendo, porém, ingressar em seu conjunto no interior do partido.

Para os membros do partido haveria de ser obrigatório, segundo Lenin, sua atuação participativa em uma das organizações partidárias e sua intervenção ativa na luta de classes e no trabalho de construção do partido revolucionário.

Precisamente essa participação ativa seria capaz de assegurar ao partido a direção e o controle efetivos das atividades de cada um de seus membros.

O partido proletário revolucionário deveria ser projetado como um sistema de organismos partidários, agindo segundo um plano comum, adotado com no centralismo democrático e implementado, com a mais resoluta disciplina, tendo em conta o princípio da unidade do partido.

Com base em sua redação do Parágrafo Primeiro do Estatuto do POSDR, Lenin deflagrou o início de uma luta permanente em prol da nitidez organizativo-partidária e contra o amontoamento, em suas fileiras, de elementos oscilantes e oportunistas.

Segundo Lenin, a tarefa central dos revolucionários do POSDR seria custodiar a firmeza, a disciplina e o vigor do partido revolucionário da classe trabalhadora, elevando, constantemente e cada vez mais, o profissionalismo e o conhecimento marxista dos membros do partido.

A luta de Lenin e de seus adeptos iskristas, travada no seio do II Congresso em torno da redação do Parágrafo Primeiro do Estatuto do POSDR, demonstrou, inequivocamente, que todos eles lutavam pela estruturação de um partido marxista-revolucionário, democraticamente disciplinado e centralizado, enquanto Martov e seus seguidores, pela engenharia de um partido disforme, frouxo, hesitante, irresoluto, incapaz de conduzir à vitória o proletariado e seus aliados em sua luta pela Revolução Socialista e a edificação da Ditadura Revolucionária do Proletariado.

Entretanto, Martov foi capaz de reunir em torno de sua formulação todos os elementos centristas e oportunistas, de modo a obter, no II Congresso, a maioria necessária à aprovação do Parágrafo Primeiro do Estatuto do POSDR, em conformidade com sua redação : 28 votos foram proferidos em favor da formulação de Martov e apenas 22 em favor da de Lenin, registrando-se, ainda, um voto de abstenção.

Todos parágrafos restantes do projeto de estatuto de Lenin foram aprovados por maioria de votos.

No entanto, a partir desse momento, cabe destacar que o II Congresso passou a ser caracterizado pela luta de Lenin e dos bolcheviques contra o inorganicismo oportunista da fração menchevique, de modo a conduzir, inicialmente, ao nascimento de duas frações interno-partidárias distintas – a fração bolchevique, integrada, então, por Lenin, Krassin, Bogdanov, Lunatcharsky, Bubnov, Artiom, Enukidze, Kalinin, Kamenev, Krestinsky, Krupskaya, Lashevitch, Litvinov, Lozovsky, Manuilsky, Mejinsky, Muralov, Muranov, Noguin, Ordjonikidze, Petrovsky, Piatnitsky, Podvoisky, Rykov, Skrypnik, I. Smirnov, Schaumian, Schliapnikov  Solts, Sosnovsky, Stassova, Steklov, Stutchka, Sverdlov, Teodorovitch, Tsiurupa, Voroshilov, Voronksy, Vorovsky, Zinoviev, entre outros e a fração menchevique, composta, naquele tempo, por Martov, Plekhanov, Dan, Potressov, Axelrod, Zassulitch, Jordania, Strumiline, Deich, Tsereteli, Trotsky, Antonov-Oveseienko, Uritsky e seus seguidores.

Por fim, relativamente aos trabalhos do II Congresso do POSDR de 1903, importa anotar que, após o acolhimento do programa e do estatuto partidários, acolheram os delegados presentes um série de decisões relativas às questões táticas, sindicados e manifestações públicas.

Entretanto, após a ruptura dos iskristas, motivada pela formulação do Parágrafo Primeiro do Estatuto, a luta deflagrada no seio do II Congresso adquiriu contornos cada vez mais ásperos e contraditórios.

O II Congresso acolheu, ainda, uma resolução acerca da relação a ser mantida com os socialistas-revolucionários (SRs), na qual se afirmou nada serem esses últimos senão uma fração da burguesia democrática.

Por essa razão, resultou aprovada a condenação de toda e qualquer tentativa de obscurecer as diferenças principistas e políticas, existentes entre a Social-Democracia Russa e os socialistas-revolucionários(SRs).

No que diz respeito à postura em face da burguesia liberal russa, foram apresentadas duas proposições :

 

a.    uma proposição de Lenin e Plekhanov.

b.    outra proposição de A. Potressov.

 

A proposição Lenin-Plekhanov ressaltava, sobretudo, a tarefa de lutar por desmascarar perante as massas a sonolência e o temor da burguesia liberal russa.

A proposição de A. Potressov, em conformidade com o espírito programaticamente social-reformista e estatutariamente oportunista que vicejava em parte considerável do Congresso, defendeu a concepção de colaboração da classe trabalhadora com a burguesia liberal, no quadro das lutas contra autocracia.

Vacilante,  o Congresso foi incapaz de decidir-se, claramente, em favor de uma dessas proposições, de modo que ambas acabaram sendo acolhidas, em conformidade com a idéia de que seriam compatíveis as duas entre si.

Na medida em que não se acolhera, nas disposições do Estatuto do POSDR, o reconhecimento da Liga Estrangeira da Organização Operária Petersburguense (Economistas) enquanto representante do partido no exterior, 2 delegados adeptos do economismo abandonaram o Congresso, em sinal de protesto.   

A seguir, 5 delegados bundistas fizeram o mesmo, em vista de ter sido rejeitado o ultimato formulado pelo Bund, no sentido de dever o II Congresso reconhecê-lo enquanto único representante do proletariado judaico.

O abandono de 7 delegados oportunistas modificou, então, a correlação de forças congressuais, em favor dos adeptos das posições de Lenin.

No momento das eleições para a composição das instituições centrais do POSDR, Martov exigiu fosse assegurada a maioria de seus seguidores, seja na redação do Iskra (A Centelha), seja no Comitê Central do Partido.

Tendo transitado a maioria do congresso para as posições leninistas, foi acolhida, porém, a proposta de Lenin de eleição para a Redação do Órgão Central de três membros, a saber : Lenin, Plekhanov e Martov, bem como de composição do Comitê Central com os adeptos das posições leninistas.

A votação acerca da composição das instituições centrais do POSDR fortaleceu a vitória das posições de Lenin.

Desde então, os adeptos de Lenin, havendo adquirido a maioria nas eleições para os órgãos centrais do partido, vieram a ser denominados de bolcheviques, ao passo que seus adversários, receberam a designação de mencheviques.

Em vista de todo o exposto, é possível afirmar-se, resumidamente, que o II Congresso do POSDR representou, em linhas gerais, um passo lendário na trilha do fortalecimento do marxismo revolucionário na Rússia  e em todo o mundo contra o economismo e o social-reformismo programático, ainda que, no domínio mais complexo e intricado das questões estatutárias, não tenha sido capaz de imprimir uma categórica derrota ao oportunismo organizativo, a despeito de tê-lo candentemente desmascarado em suas pretensões mais torpes e efetivamente reduzido a sua influência, no seio dos órgãos centrais de direção do partido.

Ele demonstrou que, ao lado dos velhos colaboracionistas de classes, i.e. no lugar dos sociais-reformistas economistas, surgia, agora, em na disputa pelo direcionamento do movimento das massas proletárias e dos oprimidos de todo gênero, um novo fenômeno, expressado através do oportunismo na organização do partido da classe trabalhadora, i.e. o menchevismo, em sua embrionária forma existencial, destinada a degenerar-se cada vez mais, em todos os sentidos.

De toda sorte, o II Congresso do POSDR representou uma vitória para a luta dos trabalhadores russos e seus aliados na medida em que logrou fazer estabelecer um programa, um estatuto e uma direção orgânica - o que havia-se revelado inteiramente impossível no contexto do I Congresso do POSDR de 1898 -, e, dessa forma, estabeleceu os parâmetros fundamentais para a intervenção unitária do partido na luta de classes.

Tendo contribuído, porém, para colocar às claras importantes diferenças de concepção organizativa do regime de funcionamento da organização marxista-revolucionária, o II Congresso do POSDR conduziu a uma divisão em duas grandes partes de suas fileiras, abrindo o período para o surgimento de um sistema essencialmente dual de frações públicas : a fração pública dos bolcheviques e a fração pública dos mencheviques.   

Tal como será possível verificar-se a seguir, a primeira dessa frações, tendo a sua frentes Lenin, pautou-se, permanentemente, pela defesa dos princípios organizativos do marxismo revolucionário, ao passo que a segunda, encabeçada por Martov, projetou-se, irremediavelmente, no caminho sem retorno do oportunismo, em seus mais diversos matizes existenciais.

 

CAPÍTULO 3.

O SURGIMENTO EM 1903 - 1904

DA FRAÇÃO PÚBLICA BOLCHEVIQUE E DO

SISTEMA DE FRAÇÕES NO INTERIOR DO POSDR

 

Ainda no curso do II Congresso de 1903, é possível atestar-se o surgimento de duas principais frações antagônicas do POSDR : a fração dos bolcheviques - defensores atentos do marxismo revolucionário, seja no domínio programático, seja no estatutário -, e a fração dos mencheviques – reformista, no domínio programático, e oportunista, no campo estatutário.

Essas duas frações ainda não possuíam um caráter eminentemente público.

O sistema de frações dos sociais-democratas russos – composto, porém, preponderantemente pelas frações públicas dos bolcheviques e dos mencheviques – que viria a existir a seguir, haveria de constituir, durante 9 anos, i.e. de fins de 1903 – início de 1904 até fins de 1911 – início de 1912, uma característica marcante de todo um período histórico da luta em prol da construção de um partido marxista-revolucionário naquele país.

Pois, a cisão verificada no II Congresso do POSDR expandiu-se, com certas mediações, porém sempre mais progressivamente, já nos meses subseqüentes, conduzindo à transformação do fracionalismo interno-partidário existente em fracionalismo público, viabilizado seja pela irrevogável renúncia de Lenin ao cumprimento de seus deveres como membro do Conselho do Partido e da Comissão Editorial do Iskra e denúncia aberta das posições organizativo-oportunistas do Novo Iskra, em fins de 1903 e início de 1904[42], seja pelo aparecimento do jornal semanal bolchevique clandestino “Vperiod(Avante)”, a partir de 22 de dezembro de 1904 – contando com a redação de Lenin, Vorovsky, Olminsky e Lunatcharsky -, seja pelo surgimento entre bolcheviques e mencheviques de substanciais e insuperáveis diferenças políticas relativas à tática política a ser dinamizada no quadro revolução russa em desenvolvimento[43], seja ainda pela rejeição dos mencheviques a participaram do III Congresso do POSDR, cuja organização recaiu nas mãos dos bolcheviques, encabeçados por Lenin[44].

Seria, entretanto, apenas no quadro do III Congresso do POSDR, ocorrido em 1905, que a redação leninista do Parágrafo Primeiro do Estatuto viria a ser consagrada exitosamente, com ampla maioria de votos.

Precisamente no período inter-congressual de 1903 a 1905, é que Lenin veio, então, a dedicar-se, em sua renomada obra, intitulada “Um Passo Adiante, Dois Passos Atrás”, de 1904, à clarificação da essência social do oportunismo russo e internacional, no domínio das questões relativas ao regime de funcionamento da organização marxista-revolucionária, desenvolvendo uma crítica acerba contra o menchevismo, nas questões estatutário-organizativas, ao mesmo tempo em que formulou, doutrinariamente, os fundamentos principistas do partido de novo tipo da atual época do imperialismo capitalista[45].

 

 

 

CAPÍTULO 4.

LENIN E LUXEMBURG :

DUAS CONCEPÇÕES ANTAGÔNICAS

RELATIVAS À QUESTÃO ORGANIZATIVA

DO PARTIDO REVOLUCIONÁRIO

 

No domínio da luta de classes internacional do proletariado, deve-se, adicionalmente, ressaltar que uma excelente e profundamente séria expressão dos contrastes e divergências existentes entre a defesa dos princípios organizativos marxistas-revolucionários - formulados e defendidos por Lenin -, e aqueles de natureza manifestamente oportunista - reivindicados, de maneira geral, não apenas pelos mais célebres representantes sociais-reformistas da II Internacional Socialista, senão ainda por muitos revolucionários autenticamente marxistas-proletários que, entretanto, diante daqueles abertamente capitulavam em questões de construção da organização marxista autenticamente revolucionária, de modo a aderir ao menchevismo russo – são os artigos polêmicos produzidos, de um lado, por Lenin e, d’outro lado, por Luxemburg, datados do período imediatamente posterior à realização do II Congresso do Partido Operário Social-Democrático Russo (POSDR)[46].      

O presente estudo já teve a oportunidade de assinalar, em sua introdução, que, aos olhos de Lenin, mesmo tendo Rosa Luxemburg cometido inúmeros erros conceituais e analíticos, haveríamos de considerá-la, sempre e permanentemente, como uma águia do marxismo revolucionário.

Particularmente no que tange ao domínio da organização marxista-revolucionária, Lenin assinalou, justa e precisamente, que Rosa equivocou-se em 1903, na apreciação do menchevismo.

Equivocou-se também, quando, em julho de 1914, ao lado de Plekhanov, Vandervelde, Kautsky, entre outros, aspirou à unificação dos bolcheviques com os mencheviques.  

Pronunciando-se, sumariamente, acerca dessa temática, Lenin teve a oportunidade de evidenciar, nítida e ponderadamente, os diversos equívocos de Luxemburg, particularmente manifestados no domínio da organização do partido revolucionário e das lutas fracionais :

 

Paul Levi quer agora cair nas graças da burguesia – e, conseqüentemente, de seus agentes, a II Internacional e II ½ Internacional – através da republicação precisamente daqueles escritos de Rosa Luxemburg em que ela se encontrava equivocada.

Devemos responder a isso, citando duas linhas de uma boa velha fábula russa: “As águias podem, às vezes, voar mais baixo do que as galinhas, porém as galinhas não podem jamais subir às alturas das águias.”(EvM.: a fábula em referência é de autoria de Ivan Krylov).

Rosa Luxemburg equivocou-se na questão da independência da Polônia.

Equivocou-se, em 1903, em sua apreciação do menchevismo.

Equivocou-se na teoria da acumulação do capital.

Equivocou-se quando, em julho de 1914, juntamente com Plekhanov, Vandervelde, Kautsky e outros, defendeu a unificação dos bolcheviques com os mencheviques.

Equivocou-se em suas anotações redigidas no cárcere de 1918 (nesse sentido, corrigiu a maioria de seus erros, depois de abandonar o cárcere, no fim de 1918 e no início de 1919).

Porém, apesar de todos os seus erros, Rosa foi e permanece sendo uma águia.

E não apenas os comunistas de todo o mundo irão velar pela sua memória, porém sua biografia e suas obras completas (a publicação das quais está sendo incomensuravelmente retardada pelos comunistas alemães que podem apenas ser em parte desculpados por conta das tremendas perdas que estão sofrendo em sua severa luta) servirão como úteis manuais para o treinamento de muitas gerações de comunistas em todo o mundo.

«Desde 4 de agosto de 1914, a Social-Democracia Alemã tornou-se um cadáver fedorento », essa declaração há de tornar famoso o nome de Rosa Luxemburg na história do movimento da classe operária internacional.

E, naturalmente, no pátio traseiro do movimento da classe operária, entre os montes de esterco, galinhas como Paul Levi, Scheidemann, Kautsky e toda aquela sua fraternidade, vão piar sobre os erros cometidos pela grande comunista.      

A cada pessoa deve-se dar o que lhe pertence.”[47]

 

Apreciando, resgatando e defendendo, devidamente, a tradição essencialmente marxista de Karl Liebknecht e Rosa Luxemburg, apesar de seus tantos equívocos, porém sempre comprometidos, antes e acima de tudo, com a perspectiva de organização da revolução violenta do proletariado para a edificação da Ditadura Revolucionária do Proletariado na Alemanha, Lenin afirmou, solenemente, em seu Discurso de Abertura do I Congresso do Komintern :

 

„Em nome do Comitê Central do Partido Comunista da Rússia declaro aberto o I Congresso da Internacional Comunista. Em primeiro lugar, peço a todos os presentes que se levantem de suas cadeiras em memória dos melhores representantes da III Internacional : Karl Liebknecht e Rosa Luxemburg.“[48]

 

Essas palavras de Lenin, relacionadas com sua interpretação do papel histórico de Liebknecht e Luxemburg, enquanto os melhores representantes da Internacional Comunista, deveriam, em princípio, servir, por si mesmas, como um látego desferido frontalmente contra as desavergonhadas tentativas doutrinárias dos principais ideólogos franco-gramscianos de Actuel Marx e do Secretariado Unificado (SU-QI), voltadas a transformar Rosa Luxemburg em uma social-oportunista vulgar, que carrega, eternamente, consigo, no caminho da luta pelo socialismo, a auréola santificada da defesa de fórmulas de liberdade essencialmente democrático-burguesas[49].

Nesse sentido, destaque-se, entretanto, à guisa de exemplo, entre os diversos e renomados textos de Rosa Luxemburg, aquele intitulado E Pela Terceira Vez o Experimento Belga, vindo à luz já em 4 de junho de 1902, quando essa autora teve a oportunidade de escrever, de modo incorruptivelmente claro, contra os legalistas belgas, i.e. Émile Vandervelde e outros :

 

 „Entretanto, não por predileção às ações violentas ou ao romantismo revolucionário devem os partidos socialistas, mais cedo ou mais tarde, estar preparados também para embates violentos com a sociedade burguesa, em casos em que nossas aspirações se direcionem contra os interesses vitais das classes dominantes, senão em razão também da amarga necessidade histórica.

O parlamentarismo enquanto meio de luta político da classe trabalhadora, individualizador do espírito, é tão fantástico e, em primeira linha, reacionário, como o é a greve geral, individualizadora do espírito, ou a barricada, individualizadora do espírito. Evidentemente, a revolução violenta é, nas condições atuais, um meio de dupla-face, aplicável de modo extremamente difícil.

E podemos esperar que o proletariado apenas faça uso desse meio quando se apresentar o único caminho adequado para sua implementação e, evidentemente, apenas em condições em que a situação política de conjunto e a relação de forças assegurem, mais ou menos, a probabilidade de êxito.

Porém, a concepção clara da necessidade da aplicação da violência, seja nos episódios individuais da luta de classes seja para a conquista definitiva do poder de Estado é nisso, de antemão, imprescindível. Ela representa aquilo que consegue conferir também à nossa atividade legal, pacífica, a apropriada ênfase e efetividade.“[50]

 

Com efeito, em sua luta contra a falsificação política da consigna contida no Programa de Erfurt relativa à „conquista do poder político“, falsificação essa empreendida pelos marxistas-revisionistas e sociais-reformistas do Partido Social-Democrático da Alemanha(SPD), representados, antes de tudo, por Eduard Bernstein, Conrad Schmidt e Karl Kautskye, em parte, também por Wilhelm Liebknecht que renegava a necessidade histórica da Ditadura Revolucionária do Proletariado para o atingimento do socialismo – admitindo-a apenas como medida excepcional em caso de guerras – escreveu Luxemburg, já em 1903, de modo claro e preciso :

 

„Partindo do fundamento do socialismo científico de que „a libertação da classe trabalhadora pode ser apenas obra da classe trabalhadora“, a Social-Democracia reconhece que subversão, i.e. a revolução para concretização da reconformação socialista, pode ser realizada apenas pela classe trabalhadora enquanto tal, e, em verdade, enquanto a ampla massa propriamente, sobretudo a massa do proletariado industrial.

A primeira ação da transformação socialista tem de ser, portanto, a conquista do poder político através da classe trabalhadora e a edificação da Ditadura do Proletariado, necessária incondicionalmente à materialização das medidas de transição.“[51]

 

O assassinato de Luxemburg e Liebknecht, em 1919, pela Social-Democracia Alemã e seus aliados políticos e militares burgueses representou um evento de significado histórico-mundial não apenas porque, segundo Lenin :

 

 Os melhores dirigentes da Internacional Comunista foram exterminados, senão ainda por ter-se revelado, definitivamente, o caráter de classe de um Estado Europeu desenvolvido, podendo-se dizer, sem exagero, o caráter de classe de  um Estado desenvolvido em escala mundial. ... „Liberdade“ significa em uma das repúblicas mais livres e desenvolvidas do mundo, na República Alemã, a liberdade para assassinar impunemente os dirigentes presos do proletariado.“[52]

 

Torna-se, pois, nos dias de hoje, cada vez mais necessário, resgatar-se e defender-se, devidamente, a tradição essencialmente marxista de Karl Liebknecht e Rosa Luxemburg, comprometida, antes e acima de tudo, com a perspectiva de organização da revolução violenta do proletariado para a edificação da Ditadura Revolucionária do Proletariado.

Quando em 1911, o célebre politólogo alemão, Robert Michels, elaborou sua obra clássica, intitulada Sociologia do Sistema de Partidos na Democracia Moderna. Investigações acerca das Tendências Oligárquicas da Vida em Grupo, tratando preponderantemente, dos partidos políticos e de sua forma de organização, não se referiu, entretanto, por uma única vez, a Lenin ou a Trotsky, ao passo que mencionou, pelo contrário, no mínimo, por dez vezes, o nome de Rosa Luxermburg.[53]      

Lenin  deslocou-se para os países da Europa Ocidental, em 1900, proveniente de seu exílio na Sibéria, poucos anos depois da chegada de Luxemburg nessa área geográfica do continente europeu.

Seus livros, suas anotações, suas brochuras, suas concepções partidário-organizativas, redigidas originalmente em língua russa, permaneceram, nada obstante, sendo pouco conhecidas da militância socialista-revolucionária do ocidente, durante longos anos[54].

Um debate mais profundo acerca dos critérios defendidos por Lenin relativamente à teoria de organização do Partido revolucionário foi, de início, estritamente restrito aos pouquíssimos especialistas da vanguarda do socialismo europeu-ocidental, que possuíam laços especiais com a causa da luta de classes travada na Rússia Czarista.     

Entretanto, sua concepção de Partido conquistou, desde logo, uma grande atenção, em particular, junto aos agrupamentos revolucionários da Europa do Leste, por conformar-se ela como sendo o próprio cerne do bolchevismo leninista.

Quando a avançada teoria da organização do Partido revolucionário de Lenin, elaborada já nos primeiros anos do século XX, começou a encontrar sua aplicação prático-concreta, contando com o apoio de uma grande parte de russos socialistas emigrados ou politicamente asilados na Europa Ocidental, passou a ser amplamente debatida não apenas pelos sociais-democratas russos, senão ainda por militantes poloneses, letões, caucasianos, bem como pelo membros judeus do Bund.     

No II Congresso do Partido Social-Democrático Russo (POSDR), ocorrido em 1903, nas cidades de Bruxelas e Londres, processou-se, então, a cisão entre bolcheviques (adeptos da fração da maioria) e mencheviques (adeptos da fração da minoria), relacionada essencialmente com a questão da organização estrutural do Partido, dando início a um sistema de frações públicas.

Se essa ruptura e os incontáveis artigos e polêmicas relacionados com a questão da teoria de organização do Partido revolucionário encontrou, logo a seguir, apenas pequena repercussão entre os socialistas europeus do ocidente, verificar-se-ia precisamente o contrário entre os marxistas-revolucionários provenientes do ou politicamente ativos no Leste Europeu.

Entre esses últimos, encontrava-se, então, Luxemburg, enquanto militante engajada e proveniente da organização revolucionária polonesa da II Internacional Socialista, i.e. o Partido Social-Democrático do Reino da Polônia e Lituânia (PSDRPL).

Se tanto Luxemburg como Lenin eram efetivamente refugiados políticos, perseguidos pelo despotismo czarista, certo é o fato de que Lenin incorporou, conseqüentemente, em sua atividade militante-partidária, sempre uma orientação fundamentalmente norteada para a deflagração de processos revolucionários na Rússia, uma longa e intensiva experiência histórica de ação clandestina e insurrecional.

A presença de Lenin nas diversas localidades e cidades da Europa Ocidental em que viveu, ao longo de praticamente 15 anos, era impulsionada, essencialmente, tendo como base as necessidades do trabalho de sua organização revolucionária russa. 

O atento e altamente cultivado estudo do socialismo europeu-ocidental era empreendido detidamente por Lenin, tomando, porém, constantemente em consideração suas implicações para o movimento revolucionário de seu país.

Lenin não contava com aspirações de militância estruturada, de longo-prazo, em um Partido europeu-ocidental.  

Pelo contrário, Luxemburg, depois de sua fuga do território polonês, aspirava a intervir, centralmente, em um Partido de massas legal da Europa Ocidental, precisamente na Alemanha, enquanto seguia, também, suas atividades revolucionárias, paralelamente, no território da Polônia.

Hanecki e Warski, delegados poloneses ao II Congresso do Partido Social-Democrático Russo (POSDR), de 1903, e, ao mesmo tempo, representantes do Comitê Central do Partido Social-Democrático do Reino da Polônia e Lituânia (PSDRPL) a que pertencia Luxemburg, informaram-lhe, detalhadamente, acerca da polêmica introduzida por Lenin relativamente à teoria de organização do Partido revolucionário.

Com base nessas minuciosas informações, Luxemburg fez publicar, no ”Die Neue Zeit(O Novo Tempo)”, órgão  jornalístico do Partido Social-Democrático da Alemanha (SPD), em 1904, o artigo intitulado Questões de Organização da Social-Democracia Russa, atacando, frontalmente, as posições partidário-organizativas defendidas por Lenin.[55]

Quando Lenin enviou, a seguir, sua resposta ao artigo de Luxemburg, resposta essa intitulada Rouxinóis Podem Ser Iludidos com Contos de Fadas,  à redação de ”Die Neue Zeit(O Novo Tempo)”, essa última decidiu-se por não a publicar, alegando falta de clareza por parte de Lenin na apresentação da matéria[56].   

Com efeito, Luxemburg pronunciava-se, nessa época, enquanto representante de um movimento de massas em ascensão na Europa Ocidental, antes mesmo de desenhados os primeiros sinais mais sérios de sua decadência, ao passo que Lenin surgia como representante de um agrupamento conspirativo ilegal, ativo em um país despótico, semi-feudal e semi-bárbaro, que, apenas anos depois, seria sacudido por uma imensa revolução de massas dotada de repercussão mundial.

Sintetizando, brevemente, a concepção de Lenin, expressada em suas obras magistrais acerca da teoria de organização do Partido revolucionário[57], visando a confrontá-la com aquela de Luxemburg, cumpre assinalar que, aos olhos de Lenin, os trabalhadores no quadro de seus movimentos de luta surgem como um efetivo produto dos antagonismos da sociedade burguesa, os quais, em sua dinâmica ativa, são capazes de produzir apenas consciência mais ou menos nítida acerca de questões sindicais, nomeadamente a consciência da classe trabalhadora de que seus interesses são, em sentido econômico, diametralmente opostos e inconciliáveis em relação àqueles da classe capitalista.

De modo espontâneo, poderiam os trabalhadores desenvolver, entretanto, apenas essa consciência sindical, jamais, porém, o nível superior de consciência, o nível de consciência política, em que a luta de classes revolucionária conduz, inevitavelmente, à derrubada violenta das instituições de exploração econômica e dominação político-ideológica do capitalismo, no rumo de edificação de um Estado e de uma ordem social proletário-ditatorial, prelúdio da emergência de uma sociedade socialista, fase inferior do comunismo.

Segundo Lenin, a luta de classes não se desenvolve, automaticamente, em formas políticas e jurídicas, não se conforma, por si mesma, em revolução socialista.

As concepções socialistas são, pelo contrário, produtos de elaborações fundamentalmente científicas.

Admitindo como correta uma categórica reflexão de Kautsky, Lenin destacou precisamente que o proletariado não é, porém, o portador da ciência moderna : é-o a inteligência burguesa.

Isso não pode, entretanto, significar que os trabalhadores não participem das elaborações científicas concernentes ao socialismo, porém ao fazê-lo, realizam-no não como trabalhadores, mas sim como teóricos do socialismo, apropriando-se do saber de seu tempo e enriquecendo-o. 

Nesse sentido, Lenin assinala, em sua obra maior Que Fazer :

 

“Como suplemento ao dito acima, queremos citar ainda as seguintes palavras, muito apropriadas e valiosas, de Karl Kautsky acerca do Esboço do Novo Programa do Partido Social-Democrático Austríaco :

 

« Muitos de nossos críticos revisionistas admitem que Marx teria afirmado que o desenvolvimento econômico e a luta de classes criariam não apenas as precondições da produção socialista, senão também diretamente o conhecimento(grifado por K.K.) de sua necessidade e, aí, os críticos terminam logo com a objeção de que o país com o desenvolvimento capitalista mais avançado, a Inglaterra, seria dotado, entre todos os países modernos, desse conhecimento, da maneira mais ampla.

Segundo a nova versão, poder-se-ia admitir que também a Comissão Austríaca de Programa dividiria o ponto de vista “marxista-ortodoxo”, pretensamente reproduzido dessa forma.

Pois, afirma-se ali : “Quanto mais o desenvolvimento do capitalismo faz inflar o proletariado, tanto mais esse último será forçado e capaz de assumir a luta contra o capitalismo. O proletariado alcança a consciência“ da possibilidade e necessidade do socialismo etc. Nesse contexto, a consciência socialista surge enquanto o resultado necessário e direto da luta de classes proletária.

Porém, isso é errado.       

O socialismo enquanto doutrina enraíza-se, porém, tanto nas relações econômicas contemporâneas como o faz a luta de classes do proletariado, emergindo, tal como essa última, da luta contra a pobreza de massas e a miséria de massas, que são produzidas pelo capitalismo.

Porém, ambos surgem um ao lado do outro, não um a partir do outro, e sob pressupostos diferentes.

A moderna consciência socialista pode surgir apenas na base de uma profunda concepção científica.

Na realidade, a ciência econômica contemporânea forma uma pré-condição da produção socialista tal como o faz, por exemplo, a técnica moderna, apenas que o proletariado não pode, mesmo com a melhor das vontades, criar nem um nem outro. Ambos surgem do processo social contemporâneo.

O portador da ciência não é, porém, o proletariado, mas sim a inteligência burguesa (grifado por K.K.).

Em membros isolados dessa camada surgiu, pois, também, o socialismo moderno e, apenas através deles, foi transmitido, espiritualmente, a proletários extraordinários que o introduziram, então, na luta de classes do proletariado, onde as relações permitiram-no.  

A consciência socialista é, portanto, algo trazido de fora, para dentro da luta de classes do proletariado (etwas in den Klassenkampf des Proletariats von aussen Hineingetragenes), não algo surgido originariamente a partir desse último.

Em conformidade com isso, o velho Programa de Hainfeld afirma, de modo inteiramente correto, que pertence às tarefas da Social-Democracia encher o proletariado com a consciência (grifado por K.K.) acerca de sua situação e de sua tarefa.

Isso não seria necessário dizer-se, caso essa consciência emergisse, por si mesma, da luta de classes.

A nova versão tomou essa frase do velho Programa, apensando-o precisamente ao citado.

Através disso, porém, a dinâmica do pensamento foi inteiramente dilacerada...»”[58]         

 

Em observação a essas linhas de Karl Kautsky, Lenin assinalou, ainda, precisamente :

 

“Se então não se pode falar de uma ideologia autônoma, elaborada pelas massas trabalhadoras por si mesmas, no curso de seu desenvolvimento, pode-se colocar a questão apenas da seguinte forma : ideologia burguesa ou ideologia socialista.

 

Nota : Isso não quer dizer, evidentemente, que os trabalhadores não tomam parte dessa elaboração. Porém, fazem-no não como trabalhadores, mas sim como teóricos do socialismo, como os Proudhon e Weitling, com outras palavras : eles tomam parte apenas e na medida em que conseguem, em maior ou menor medida, apropriar-se desse saber e enriquecê-lo.

Porém, para que os trabalhadores consigam fazê-lo mais freqüentemente é necessário fazer tudo para elevar o nível de consciência dos trabalhadores, em geral.

É necessário que os trabalhadores não se recluam nos limites artificialmente estreitos de uma “Literatura para Trabalhadores”, mas sim aprendam sempre mais a apropriar-se da literatura geral.

Seria até mesmo mais correto dizer, ao invés de “não se recluir”, não serem recluídos, pois os trabalhadores mesmos lêem tudo e querem tudo ler, também aquilo que é redigido para a inteligência, sendo que apenas alguns (maus) intelectuais acreditam que “aos trabalhadores” basta quando se lhes conta acerca das condições da fábrica e mastiga-se, mais uma vez, coisas há muito tempo conhecidas.”[59]       

 

Tal como Engels, Lenin destaca que o socialismo, uma vez tornado ciência, deve ser estudado, tal como toda qualquer outra ciência.

Com efeito, Engels assinala, nitidamente :  

 

„Será, nomeadamente, o dever dos dirigentes adquirir clareza cada vez maior acerca de todas questões teóricas, libertar-se, cada vez mais, da influência das frases tradicionais, pertencentes à concepção do mundo, e ter em vista, constantemente, que o socialismo, desde que se tornou ciência, exige ser tratado como uma ciência, i.e. exige ser estudado. Tudo dependerá de propagar, com zelo crescente, entre as massas de trabalhadores, a visão, cada vez mais clarificada, assim adquirida, de fundir (no original alemão : zusammenschließen), cada vez mais firmemente, o partido e as organizações sindicais.“[60]

 

Tendo em conta essa ponderação de Engels, Lenin assinala, literalmente, em sua obra O Que Fazer ?:

 

„No presente momento, gostaríamos apenas de declarar que o papel de lutador de vanguarda pode ser cumprido apenas por um partido que é guiado pela teoria mais avançada.“[61]

 

Assim, resulta que uma ideologia proletária não se poderia desenvolver espontaneamente, sendo que a limitação do movimento dos trabalhadores à dimensão econômica, sindical-reivindicatória, recusando-se a luta político-revolucionária socialista pela tomada do poder do Estado e, por conseguinte, à tarefa de organização do Partido revolucionário incumbido de assegurar essa última tarefa, fundado na revolução impulsionada pelas massas proletárias, significaria precisamente lutar-se não para emancipar os explorados e dominados pelo jugo capitalista, não para derrubar a ordem social capitalista, mas sim para promover a adaptação da luta de classes dos trabalhadores às vicissitudes do jugo capitalista.

A libertação das massas trabalhadoras é obra das próprias massas trabalhadoras, porém tal fenômeno torna-se apenas possível quando adquirirem elas a consciência político-revolucionária acerca de sua própria condição, sendo uma das tarefas do Partido revolucionário ajudá-las a adquiri-la.

Os trabalhadores e seu Partido revolucionário haveriam, assim, de posicionar-se nos embates de interesses defendidos por todas as demais classes sociais, compreendendo e respondendo respectivamente às suas premissas intelectuais, morais, políticas e econômicas.

Um Partido rigorosamente organizado, segundo Lenin, seria, assim, uma exigência decorrente da luta de classes altamente desenvolvida e complexa de nossos dias, devendo constituir um fato ativo no processo histórico, intervindo conscientemente : não configurando um simples produto passivo e reativo dos fenômenos históricos.

Supostas essas condições objetivas, a  direção desse Partido funda sua ação política legal e parlamentar, bem como clandestina e insurrecional, sobre a análise científica do processo histórico e protege-se de falsificações, através de uma luta permanente em prol da correta interpretação e aplicação dos princípios marxistas-engelsianos revolucionários.

É imprescindível, pois, que a direção desse Partido funcione ininterruptamente, sendo capaz de desenvolver sua teoria, propaganda e organização de modo imperturbável, razão pela qual a constituição de um quartel-general revolucionário funcionante no exterior torna-se indispensável, sempre que necessário seja, em função da conjuntura histórica.

Segundo a teoria organizativa do Partido revolucionário de Lenin, as células partidárias vinculam-se aos organismos centrais e ao Congresso do Partido, ao mesmo tempo em que reconhecem o valor, a visão e a política defendidos por esses últimos, resultantes da síntese do processamento das experiências locais formada, unificada e unitariamente, em nível superior.

Os organismos do centro transmitem às células do Partido suas diretivas mediante profissionais revolucionários, i.e. mediante homens que dedicam disciplinadamente sua inteira existência profissional à necessidade de execução de estritas diretivas político-revolucionárias e constituem a ligação estreita da militância com o centro do Partido, suas concepções, seu programa e suas resoluções principistas, estratégicas e táticas revolucionárias.

Esses profissionais revolucionários constituem o eixo em torno do qual gira o conjunto da organização.

Esse agrupamento de revolucionários, intervindo unitária e centralizadamente, constitui uma organização essencialmente conspirativa, em função dos objetivos insurrecionais perseguidos, sem que suas ações parlamentares-institucionais sejam negligenciadas.

Pois, segundo Lenin :

 

“Trata-se de uma obrigação combinar as formas de luta ilegais e legais.”[62]

 

Nesse Partido revolucionário não se ingressa, enquanto membro, apenas para expressar-se tendências políticas e aderir aos princípios fundamentais da ideologia do marxismo revolucionário – nisso baseando seu comportamento social -, senão também para dedicar-se uma existência a uma causa revolucionária, no quadro de uma estrutura organizativa centralizada, unitária e disciplinada.

Notoriamente, as concepções organizativas de Lenin acerca do Partido revolucionário descendem tanto dos jacobinos como dos revolucionários russos que o antecederam, defensores da formação de grupos de vanguarda, compostos por dedicados revolucionários, empenhados na tarefa da tomada violenta do poder, no quadro da revolução socialista desencadeada pelas massas trabalhadoras – a exemplo das concepções de Nicolai Tchernyshevski, Sergei Netchaiev, Peter Tkatchev -, devendo tais tradições insurrecionais estarem inseparavelmente vinculadas ao papel revolucionário do proletariado moderno.

Além de sua magnífica obra literário-conspirativa, intitulada Que Fazer ? Relatos sobre Gente Nova, Tchernyshevski assinalou, com grande clareza, já por volta de 1861, por ocasiao de sua ativa intervenção nas lutas de emancipação dos servos russos :

 

“Quem é o responsável pela servidão ? Apenas os nobres e alguns burocratas ?

Mas, o próprio Czar é proprietário de terras.

Então, por que deixaria de levar em conta exclusivamente os interesses dos senhores de terra ?

Quando haverá liberdade de fato para os camponeses ?

Quando o povo irá se governar ?

Quando o camponês não terá de pagar imposto e quando ele não será separado da família e da sua aldeia para servir o Exército durante décadas ?

Como se conseguirá isso ?

Através de uma revolução.

É preciso que os camponeses troquem idéias entre si, aproximem-se de seus irmãos que servem como soldados e preparem-se para o grande o dia.

Mas, até então, eles não devem se envolver em rebeliões menores e isoladas contra o Governo.

Só quando o movimento ganhar caráter nacional é que a revolução poderá conseguir sucesso.”[63]  

 

No que concerne a Netchaiev, precisamente sua característica de recorrer às técnicas especiais de conspiração – a despeito de sua marcada influência anarco-bakhuninista -, foi devidamente apreciada por Lenin, sem prejuízo das pesadas críticas desferidas contra aquele revolucionário russo, em Os Possessos, pelo expoente literário do conservadorismo russo, Dostoievski.    

Paralelamente, segundo Tkatchev, a perspectiva de acreditar-se em rebeliões populares espontâneas, tal como defendidas por Mikhail Bakhunin, representava um sonho improvável de ser realizado[64].

Por outro lado, suas formulações definiam já claramente um traço de separação e repúdio das iniciativas isoladas adotadas pelo terrorismo individual.

Sendo assim, observou Tkatchev, por volta de 1873 :

 

“Nós admitimos a anarquia ... apenas como o ideal desejável de um futuro distante.”[65]

 

O que poderia, então, salvar a Rússia Czarista de uma catástrofe, representada por uma transição pacífica para o constitucionalismo burguês, explorador e usurário, seria precisamente o fervor revolucionário de uma organização minoritária e rigorosamente centralizada de revolucionários, pois, segundo Tkatchev :

 

“Em virtude de seu desenvolvimento mental e moral, essa minoria sempre teve e terá de ter força intelectual e moral sobre a maioria.

A essência da revolução está na coerção, por isso a organização revolucionária exige centralização, disciplina rigorosa, rapidez, decisão e coordenação de atividades.”[66]

 

A acentuada insistência na centralizaçao e na disciplina da organização conspirativa e  revolucionária de vanguarda, o agudo criticismo quanto à possibilidade de rebeliões socialistas espontâneas das massas, a rejeição do terrorismo individual, por significar esse a dispersão de energias e de recursos revolucionários, o desprezo pela possibilidade de persuasão pacífica das classes dominantes, constituem fortes pontos de contato entre os jacobino-radicais russos, encabeçados por Peter Tkatchev – jacobinos na forma de ainda “verdes estudantes secundaristas”, na apropriada expressão de Friedrich Engels – e a avançada concepção socialista-revolucionária de Lenin, em cujo quadro, porém, o tipo de organização revolucionária centralizada, incumbida da tarefa consciente de destruição do Estado Burguês e construção de uma transitória Ditadura Revolucionária do Proletariado, combina-se com a elaboração de uma ideologia socialista-proletária avançada e a incorporação partidária da inteligência científico-socialista na direção da revolução feita pelas massas.

Com efeito, Lenin contemplava no jacobinismo uma das etapas mais altas do movimento ascensional da classe oprimida na luta por sua emancipação, considerando que, nas principais cidades européias ocidentais da Rússia do século XX, o jacobinismo seria o Governo da Classe do Proletariado Revolucionário, que apoiado nos camponeses pobres e solidificado sobre bases materiais que já existiam para o movimento até o socialismo, conseguiria renovar não somente a grandeza, a força indestrutível dos jacobinos do século XVIII, senão ainda levar os trabalhadores do mundo inteiro ao triunfo definitivo.

No entendimento de Lenin, o jacobino  que uniu sua causa para sempre à organização do proletariado e que tem consciência dos seus interesses de classe, seria o lutador bolchevique.

Nessa medida, o Partido revolucionário haveria de ser também uma organização de vanguarda de luta, incumbida de dirigir as massas proletárias e erigir a Ditadura Revolucionária do Proletariado, após destruir integralmente o Estado Burguês.

 

Luxemburg, ao  publicar, no ”Die Neue Zeit(O Novo Tempo)”, órgão  jornalístico do Partido Social-Democrático da Alemanha (SPD), em 1904, o artigo intitulado Questoes de Organização da Social-Democracia Russa, atacando, frontalmente, as posições partidário-organizativas defendidas por Lenin, teve a oportunidade de destacar, inicialmente, que a questão da teoria de organização do Partido revolucionário diria respeito “a toda jovem geração socialista (ganze jüngere sozialistische Generation)” da Rússia, militante sob as difíceis condições impostas pelo despotismo czarista[67].

Sem embargo, Luxemburg censurou na concepção de Lenin sua pretensão de construir um Partido de elite, organizado concentricamente, bem como de demarcar estritamente esse Partido de todos os demais.

Luxemburg criticou, duramente, as prerrogativas possuídas pelos organismos centrais do Partido de intervir na vida política das células e agrupamentos partidários, até mesmo com medidas de dissolução e reconstituição de células, com o que poderia influir, decisivamente, na mesma assembléia partidária no qual haveria de ser eleito.

Tais prerrogativas haveriam de transformar os organismos centrais no único núcleo propriamente ativo do Partido, ao passo que todas as demais células locais e regionais converter-se-iam em simples ferramentas de implementação de medidas, em total contradição com o desenvolvimento natural da luta de classes.

Segundo Luxemburg, à parte os princípios gerais de luta, não existiriam quaisquer diretrizes, particularmente de ordem tática ou estratégica, que poderiam ser estabelecidas, de antemão, e impostas, por parte dos organismos centrais, aos militantes sociais-democrátas.

Existirião, muito mais, permanentes flutuações, sendo que dirigentes, militantes e massa do Partido revolucionário não deveriam encontrar-se rigidamente separados.

Os Partidos da Social-Democracia deveriam constituir, na ótica de Luxemburg, não apenas a organização externa da classe trabalhadora, senao ainda a forma de movimento a ela apropriada.

A teoria organizativa do Partido revolucionário de Lenin seria uma mera transferência mecanicista do funcionamento dos grupos conspirativos de Auguste Blanqui, de matiz putchista, para o interior do movimento social-democrático revolucionário, do início do século XX[68].

Além disso, segundo Luxemburg, a Rússia Czarista situava-se, incontrastável e puramente, diante de uma revolução democrático-burguesa e não proletária.

Na Alemanha, pelo contrário, existiriam já fortes e inúmeros quadros proletários, cujo estrato dirigentes era constituído naturalmente pela Social-Democracia Alemã.    

Se levada adiante, efetivamente, a concepção partidária de Lenin, o fortalecimento exponencial das prerrogativas dos organismos centrais, até o estágio de instauração de uma Ditadura do Comitê Central, acarretar-se-ia, tendencialmente, o crescimento do oportunismo e do burocratismo da organização de luta revolucionária dos trabalhadores.

Apenas o desenvolvimento espontâneo da luta de classes poderia, finalmente, superar todos os obstáculos históricos, direcionando a luta de classes para os trilhos corretos.

Nesse sentido, Luxemburg enfatizou, nitidamente :

 

“Passos falsos que um movimento realmente revolucionário dos trabalhadores empreende são, em sentido histórico, incomensuravelmente mais frutíferos e valiosos do que a infalibilidade do melhor Comitê Central de todos.”[69]

 

Observe-se ainda que, no domínio da teoria de organização do Partido revolucionário, Lenin defendeu, à época, suas posições não apenas contra Luxemburg, senão ainda contra muitos adversários ativos no interior do movimento proletário russo, entre os quais se encontrava Martov, Plekhanov, Axelrod, Tsereteli, Deich, Antonov-Ovseienko, Uritsky, Jordania, Dan, Trotsky entre outros.

Enquanto defensores e apoiadores da teoria organizativa de Partido revolucionário de Lenin, no contexto desse início do século XX, cumpre citar, porém, sobretudo, Sverdlov, Lunatcharsky, Krupskaya, Dzerjinsky, Zinoviev, Kamenev, Stalin, Lashevich, Frunze, Rykov, Litvinov, Antonov, Ordjonikidze, Bogdanov entre outros.

Trotsky, muito próximo das posições de Luxemburg, no domínio da teoria organizativa do Partido revolucionário, qualificou, em 1904, em seu artigo intitulado Nossas Tarefas Políticas, a defesa do centralismo democrático de Lenin como sendo  expressão de autêntica autocracia e regime autoritário de Partido, reivindicando, pelo contrário, vida longa à auto-atividade do proletariado e fim ao substituismo político : 

 

“Nas políticas internas do Partido, esses métodos conduzem, tal como veremos abaixo, a que a organização do Partido « substitua-se » ao Partido, o Comitê Central substitua-se à organização partidária e, finalmente, o ditador substitua-se ao Comitê Central.”[70] 

 

Em sua obra Minha Vida, encontramos, então, as seguintes palavras de Trotsky, acerca desse tema :

 

“Tendo vindo ao estrangeiro, trazia o convencimento de que a redação deveria estar «submetida» ao Comitê Central.

E esse era o modo de pensar da maioria dos partidários do Iskra.

-                                                                                                                                                                                                                                           “Não, isso não pode ser assim”, respondeu-me Lenin, quando falávamos sobre isso, “as forças são muito desproporcionais. Como podem querer nos dirigir, a partir da Rússia ? Isso não pode ser ... Nós formamos um centro fixo, somos os mais fortes ideologicamente e vamos dirigir o movimento a partir daqui.” 

-                                                                                                                                                                                                                                           “Então, será instaurado um regime de plena ditadura, por parte da redação”, objetei.

-                                                                                                                                                                                                                                           “O que se perderá com isso ?”, respondeu-me Lenin. “Nas circunstâncias atuais, não há um outro remédio”......

Separei-me de Lenin por motivos que tinham muito de “moral” e até de pessoal.

Nada obstante, ainda que aparentemente assim fosse, a divergência possuía, no fundo, um caráter político que se refletia no campo organizativo.

Eu me encontrava entre os centristas. Porém, é certo que, então, não podia ainda dar-me clara conta do centralismo severo e imperioso que o Partido revolucionário devia reclamar para lançar milhões de homens no combate da velha sociedade.”[71] 

 

O choque de concepções organizativas acerca do Partido revolucionário, protagonizado por Lenin, de um lado, e, de outro lado, Luxemburg e tantos outros mencheviques e seus aliados, nos primeiros anos do século XX, revela, antes de tudo e respectivamente, o embate entre uma teoria consideravelmente dinâmica de Partido marxista-revolucionário insurrecional e conspirativo – Partido esse de vanguarda cujo componente essencial seriam os revolucionários profissionais, atuantes sobre uma larga massa de militantes, apoiadores e simpatizantes claramente entrevistos no quadro de uma estrutura organizativa centralizada e unitária – e uma doutrina de Partido concebido enquanto reuniam de ativistas, simplesmente defensores de princípios fundamentais de uma ideologia revolucionária, organizado segundo a forma e imagem dos Partidos socialistas efetivamente entao existentes na Europa Ocidental, a exemplo do British Labour Party.

Lenin foi meridianamente claro ao acrescentar que o contexto da luta de classes proletária era essencialmente distinto na Rússia, situada essa sob o governo da autocracia czarista, na medida em que a formaçao de qualquer Partido de linhagem socialista resultava ser plenamente ilegal.

De toda sorte, tal aspecto permaneceu desconsiderado ou considerado insuficientemente nas posições de Luxemburg, seja no que respeitava a mais clara situação de autocracia vivida, então, pela Rússia Czarista, seja naquilo que concernia aos regimes democráticos-burgueses ocidentais-europeus do início do século XX, onde o ascenso do militarismo e do burocratismo dos Estados capitalistas imperialistas tornavam-se, progressivamente, uma realidade irrefutável.        

De toda sorte, o debate acerca da teoria organizativa do Partido revolucionário demonstra claramente o marcante antagonismo de posições existentes entre Partido leninista e Partido luxemburguista.

Após a derrota da Revolução Russa de 1905, registrou-se um momento de reaproximação entre Lenin e Luxemburg, no domínio de diversas questões político-analíticas, situadas no marco do Congresso da II Internacional Socialista, ocorrido em Stuttgart, em 1907, quando ambos cerraram fileiras na luta contra o oportunismo social-reformista de Eduard Bernstein e Eduard David, clamando por uma retomada da luta revolucionária em prol da derrubada do capitalismo durante a guerra imperialista que se anunciava no horizonte.

Importa anotar que o Congresso Internacional em tela foi o VII Congresso da II Internacional, sendo que se reuniu entre os dias 18 e 24 de agosto de 1907.

O Partido Social-Democrático Russo(POSDR) encontrava-se representado nesse congresso por 37 delegados. Por parte dos bolcheviques, tomaram parte nesse congresso Lenin, Lunatcharsky, Litvinov e outros.

O congresso em referência ocupou-se com as seguintes questões :

 

1.    Militarismo e Conflitos Internacionais ;

2.    Relações entre os Partidos Políticos e os Sindicatos ;

3.    Questão Colonial ;

4.    Imigração e Emigração de Trabalhadores e

5.    Direito de Voto das Mulheres.

 

O trabalho principal desse congresso concentrou-se nas comissões que elaboravam os projetos de resolução para as sessões do plenário.

Lenin interviu na Comissão sobre Militarismo e Conflitos Internacionais. 

Com seus requerimentos de emendas, colaborou para uma modificação fundamental, em sentido do marxismo revolucionário, do projeto de resolução original acerca do tema,

No cerne da resolução congressual em tela redigiu-se o seguinte :

 

“Se a guerra ameaçar-nos, as classes trabalhadoras e seus representantes parlamentares de todos os países participantes que apóiam e compõem o Bureau Internacional obrigam-se a mobilizar todas as suas forças para impedir sua eclosão, mediante aquelas medidas que lhes pareçam ser as mais efetivas, o que modificar-se-á, segundo o aguçamento da luta de classes e a situação política geral.

Se a guerra irromper, apesar disso, eles obrigam-se a intervir em favor de sua mais rápida conclusão e explorar, com todas as forças, a crise econômica e política, criada pela guerra, para instigar o povo a acelerar o fim da dominação capitalista de classe ... “[72]

 

Nada obstante, apesar dessa reaproximação de Lenin e Luxemburg em diversos pontos políticos da luta de classes revolucionária, a questão da doutrina de organização do Partido revolucionário permaneceu intocada e inconciliável.

A posição assumida pelos bolcheviques no quadro da II Internacional Socialista permaneceu sendo singular e marginal.

Os dirigentes dos Partidos de massas dos países do mundo ocidental entreviam na forma organizativa dos bolcheviques a expressão de um fanatismo insurrecional e conspirativo plenamente incomum no contexto do movimento socialista internacional, sendo que também Luxemburg esposava esse tipo de apreciação.

Nos anos que precederam a eclosão da I Guerra Mundial, a luta fracional no interior do movimento social-democrático russo atingiu um ponto de destaque.

Agora, não apenas os mencheviques situavam-se em oposição aos bolcheviques, senão ainda quase todos os Partidos e agrupamentos socialistas ligados ou interessados, de alguma forma, na situação política da Rússia Czarista colidiam contra a concepção de organização partidária de Lenin. 

Em maio de 1914, os mencheviques solicitaram à direção da II Internacional Socialista que interviessem, visando a coartar a tática de ruptura dos bolcheviques, já bastante avançada, depois da realização da Conferência dos Bolcheviques, realizada em Praga, em 1912, a qual abriu a perspectiva de fundação do novo jornal ”Pravda(A Verdade)”, enquanto instrumento de propaganda ideológico-socialista e de organização partidário-revolucionária insurrecional[73].

O dirigente belga, Emil Vandervelde, enquanto representante da Internacional, foi destacado para o cumprimento da tarefa de averiguar, em Petersburgo, em maio de 1914, a possibilidade de unificação das frações em luta no interior do Partido Social-Democrático Russo (POSDR).

A despeito dos sinais clarividentes da vindoura eclosão da I Guerra Mundial, a II Internacional Socialista planejou, então, a realização de uma conferência, reunindo as frações em referência, para o mês de agosto de 1914, na cidade de Viena, sendo que um encontro preparatório teve lugar em Bruxelas, nos dias 16 e 17 de julho do mesmo ano, dando criação a uma Comissão Especial, que acolheu o relatório político de Vandelverde acerca do Partido Social-Democrático Russo (POSDR).

Nada obstante, a própria composição  dessa Comissão Especial demonstra a avançada situação de decomposição e reorganização na qual se encontrava a Social-Democracia Russa. 

Nela, estavam representadas os seguintes agrupamentos :

 

 

1.    os mencheviques veladamente liquidacionistas, encabeçados por Martov ;

2.    Bloco de Agosto, composto pelos mencheviques em conjunto com Protessov, Axelrod e a Bund Judaica, uma formação do ano de 1912, contraposta ao bolchevismo e celebrizada por suas posições liquidacionistas ;

3.    grupo dirigido por Plekhanov ;

4.    grupo dirigido por Trotsky ;

5.    grupo liderado por Lunatcharsky ;

6.    uma fração dos sociais-democratas poloneses, comandada por Luxemburg ;

7.    uma fração dos sociais-democratas poloneses, atuantes sobretudo na cidade de Varsóvia, comandados por Unschlicht e Hanecki, influenciados teoricamente por Radek e objetivamente situados do lado dos bolcheviques ;

8.    os sociais-democratas letões, comandados por Stutchka, alinhados rigorosamente com as posiçoes de Lenin ;

9.    os bolcheviques, dirigidos por Lenin e Zinoviev.

 

 

Os bolcheviques designaram Inès Armand, como sua representante nos trabalhos da Comissão Especial em tela.

O próprio fato de que nem Lenin nem Zinoviev viajaram da Suíça à Bruxelas para participar, diretamente, das discussões e tarefas abordadas pela comissão, ilustra quais as impressões de ambos relativamente ao possível conteúdo e decisões que poderiam vir a ser adotadas na conferência, planejada para realizar-se em agosto de 1914.  

Em verdade, os bolcheviques e seus aliados abstiveram-se na votação que estabeleceu que todos os grupos do Partido Social-Democrático Russo (POSDR) dever-se-iam unificar sobre a base comum de um programa a ser objeto de uma resolução do  Bureau Internacional da II Internacional Socialista, sendo que para sua execução haveria de ser convocado um congresso geral de todo Partido.

Acerca desse episódio, Yuly Martov relata-nos o seguinte :

 

“Axelrod e Luxemburg foram encarregados de elaborar um Manifesto acerca da necessidade da unificação, dirigido contra a política rupturista dos bolcheviques.

A fração de Lenin encontrava-se, dessa forma, inteiramente isolada ...

Porém, a Guerra Mundial, que eclodiu depois de algumas semanas, colocou um fim na obra de unificação iniciada.”[74]

 

A aplicação dessa resolução de unificação significaria, evidentemente, a separação dos bolcheviques da II Internacional Socialista, pois não existem quaisquer indícios no sentido de que Lenin se submeteria à disciplina de uma maioria liquidacionista.

Luxemburg e Axelrod estavam, naturalmente, convictos disso, no momento em que aceitaram a incumbência de redigir o manifesto em referência.

A postura de Luxemburg quanto à questão organizativa do Partido revolucionário, em particular suas diferenças metodológicas em face da concepçao de Lenin referente ao tema, aguçaram-se ainda mais, depois de que teve lugar a Revolução de Outubro de 1917.

Acerca do tema, Fritz Rück, dirigente da Liga Spartakus, em Baden-Württemberg, formula o seguinte relato, digno de ser reproduzido aos leitores, referentemente ao trabalho jornalístico, empreendido por sua organização, nos últimos meses de 1917 e início de 1918 :

 

“Às vezes, foi difícil conferir uma fisionomia ao jornal, porém, ao mesmo tempo, tratou-se de uma ótima escola para mim isso de poder dizer sempre novamente, no mínimo, uma parte daquilo que a política beligerante descortinava, chamando a atenção dos leitores – muitos deles nos campos de batalha – sobre o colapso vindouro do sistema dominante e a necessidade de uma postura revolucionária.

A censura, outrora dotada de uma visão tão afiada, que riscava, freqüentemente, algumas frases ou palavras sem que se pudesse tornar o texto visível ao leitor, era cego, porém, quanto a um contexto : ele admitia, tranqüilamente, que se trouxesse artigos detalhados e séries de artigos sobre a revolução na Rússia, seus problemas e a política dos bolcheviques.

Por essa razão, servi-me, mais do que de outra forma seria o caso, do material que continha uma correspondência, surgida em Stockholm, redigida por Karl Radek, em colaboração com o Comitê Central Bolchevique de Petrogrado.

Porém, um dia recebi um carta na qual Leo Jogliches alertava-me para o fato de que os revolucionários russos possuíam seus próprios métodos e concepções, agindo em conformidade com eles.

A oposição alemã e, sobretudo, o Grupo Spartakus, deveria, em verdade, apoiar a Revolução Russa, distanciando-se, porém, de Lenin e de seu Partido.

Sobretudo, a publicação dos artigos da pena de Radek não seriam recomendáveis.

“As velhas histórias polonesas”, disse-me Paul Levi, sendo que não nos preocupamos muito, por um certo tempo, com essas coisas.

A análise da política de paz dos bolcheviques e das transformações ocorridas na Rússia fornecia a única perspectiva frutífera do fim da guerra, mediante uma revolução socialista.

Nem eu nem a organização de Württemberg ou de Stuttgart possuía qualquer tipo de ligação direta organizativa ou de outro gênero com os revolucionários russos.”[75]

 

A posição de Luxemburg acerca da questão organizativa do Partido revolucionário, projetou-se até mesmo nos debates preambulares de fundação do Partido Comunista da Alemanha, entendido como nova parte integrante e inseparável da revolução proletária mundial, inaugurada com a Revolução de Outubro de 1917.

Enquanto Karl Liebknecht, a partir de 9 de novembro de 1918, tornou-se um dos principais encabeçadores da iniciativa de criação do Partido Comunista da Alemanha – que viria a ocorrer em 30 de dezembro de 1918, no Salão de Festas da Câmara de Deputados de Berlim [76], é imperioso assinalar que Luxemburg seguiu opondo sérias resistências a que esse processo se concretizasse efetivamente.

Acerca do tema, Wilhelm Pieck registrou, então, as seguintes considerações :

  

“Cada vez mais fortemente, surgiu a concepção de que a fundação de um próprio Partido seria necessária para consolidar o movimento, também em sentido organizativo.

Jogiches e também Rosa Luxemburg podiam apenas contentar-se pouco com esse pensamento.

Eles procuravam muito mais atingir seu velho objetivo de, no interior do Partido Social-Democrático Independente (USPD), influenciar tão fortemente os trabalhadores a ponto de a política da Liga Spartakus impor-se nesse Partido, trazendo a direção desse último para as mãos de Spartakus.

Porém, para tanto, existia precisamente o pressuposto de que o Congresso Imperial do USPD fosse convocado, de modo a tornar-se posição acerca da política da direção do USPD.

Uma vez que, sob nossa reivindicação, não ocorreu, até 25 de dezembro, uma resposta da direção do USPD acerca da convocação do Congresso do Partido, havendo ela declarado, em 24 de dezembro, no “Freiheit (Liberdade)” que não poderiam realizar o Congresso por causa das dificuldades de tráfego e da agitação eleitoral (obs. De SVK: agitação para as eleições da Assembléia Nacional Constituinte), estabeleceu-se uma convocação de uma conferência de todo Império da Liga Spartakus, para o domingo, 29 de dezembro, na qual haver-se-ia de adotar um posicionamento sobre a crise do USPD e a fundação de uma Partido próprio.

A conferência que ocorreu no Salão de Festas do Câmara de Deputados, não foi pública.

Depois de um curto debate, decidiu-se, contra três votos, em favor da fundação do Partido.

Acerca do nome do Partido existiram diferenças de opinião, na medida em que Rosa Luxemburg e Jogiches eram a favor do nome “Partido Socialista dos Trabalhadores”, ao passo que um número de outros delegados posicionaram-se em prol do nome “Partido Comunista da Alemanha”.

Por isso, foi acionada uma comissão que, depois de prolongadas discussões, decidiu em favor desse último nome, com o acréscimo (Spartakusbund – Liga Spartakus).

A conferência foi interrompida pela participação no funeral dos marinheiros, assassinados em 24 de dezembro ... “[77]         

 

Cumpriu, então, a Karl Liebknecht, ao apresentar, nessa ocasião, seu informe acerca da crise do Partido Social-Democrático Independente (USPD), destacando o papel dessa organização na alta traição cometida por ela contra a revolução proletária mundial, concluir resolutamente, defendendo a criação do Partido Comunista da Alemanha (KPD), destacando o seguinte :

 

“Hoje, é necessário, perante todo o público, traçar uma linha de separação, constituindo-nos enquanto novo Partido autônomo, resoluto e implacável, coeso e unitário, no espírito e na vontade, dotado de programa, objetivos e meios claros, determinados segundo os interesses da revolução mundial socialista.

Nosso programa e nossos fundamentos fáticos, aplicamo-los desde há muito tempo.

Temos de os estabelecer ainda apenas de modo formal.

Não temos de criar uma novidade.

As massas já sabem o que somos e o que queremos.

Devemos confirmar apenas formalmente o que somos desde há muito tempo e continuar nossa obra, sobre uma base mais ampla.”[78]

 

Com efeito, uma grande deficiência das lutas revolucionárias do proletariado alemão do início do século XX consistiu, seguramente, no fato de não se ter formado, absolutamente, nesse país, um sólido Partido marxista-revolucionário, enriquecido com a concepção de Partido de Lenin.

No que concerne ao movimento Spartakus, esse último jamais chegou a possuir uma orientação clara e determinada no sentido da criação de um Partido de massas, firmemente organizado e disciplinadamente centralizado.

Ele permaneceu sendo um grupo relativamente restrito que, embora lutando corajosa e ousadamente contra o imperialismo capitalista alemão e sua política militarista, jamais foi capaz de conferir ao movimento proletário alemão a força imprescindível para o cumprimento de suas tarefas revolucionárias.

A luta implacável de Karl Liebknecht contra as diferentes variantes do oportunismo social-democrático na Alemanha, suas intervenções resolutas contra a flagrante traição revolucionária dos dirigentes do SPD e do USPD, seu decidido impulsionamento da Revolução Alemã de 1918-1919, tornou possível o seu amadurecimento de aço, de modo a torná-lo o mais decidido protagonista da fundação do Partido Comunista da Alemanha (KPD – Spartakusbund), fundamentalmente inspirado no paradigma fornecido à história pelo Partido Comunista da Rússia (Bolchevique), de Lenin, sentido-se vinculado a esse último por sólida amizade.

Porém, o Partido Comunista da Alemanha (KPD – Spartakusbund) nasceu, tardiamente, já ao fogo da Guerra Civil da Alemanha, sem dispor das mais rudimentares possibilidades de conformar, dirigente e preponderantemente, esse processo revolucionário.

A importância histórica de seu surgimento reside, portanto, precisamente no fato de ter fixado uma pedra fundamental que deveria pavimentar o caminho que haverá de ser percorrido pelas novas gerações de revolucionários na Alemanha, no campo da concepção de Partido marxista-revolucionário e de unidade da classe trabalhadora alemã, sobre bases combativas e revolucionárias.

 

CAPÍTULO 5.

RUPTURA DE TROTSKY COM O MENCHEVISMO

E FORMAÇÃO DO FRACIONALISMO

“NÃO-FRACIONALISTA”

 

No curso de 1904, verificou-se o nascimento de uma ruptura interna do domínio intra-fracional menchevique, marcado pelo afastamento de Trotsky que, não se alinhando, porém, à fração bolchevique – por ele alcunhada de jacobino-ditatorial - , moveu-se crescentemente no sentido de dar origem à fração “não-fracionalista” dos defensores da unidade de todos os sociais-democratas, formalmente estruturada, então, em 1908, em torno do órgão jornalístico ”Pravda (A Verdade)”, de Viena, contando com a colaboração de Riazanov e Ioffe, entre outros.    

 

CAPÍTULO 6.

III CONGRESSO DE 1905 DO POSDR :

ASCENSO REVOLUCIONÁRIO,

ESTRATÉGIA E TÁTICA REVOLUCIONÁRIAS,

ADOÇÃO DO PARÁGRAFO PRIMEIRO NA VERSÃO LENINISTA,

LUTA INTRA-FRACIONAL BOLCHEVIQUE

TRAVADA POR LENIN CONTRA OS KOMITETCHKIS APARATISTAS  

 

O III Congresso do POSDR, realizado Londres, em 1905, contando apenas com a presença de bolcheviques foi marcado por uma luta intra-fracional, caracterizada, em linhas gerais, pela oposição de Lenin às posições dos komitchetiks aparatistas, comandados por Rykov.

De todo modo, tal embate não conduziu absolutamente à formação de novas frações públicas[79].      

 

CAPÍTULO 7.

IV CONGRESSO DA UNIFICAÇÃO DE 1906 DO POSDR :

LUTA FRACIONAL DOS MENCHEVIQUES E

DO AGRUPAMENTO STALIN-SUVOROV CONTRA LENIN

EM TORNO DO PROGRAMA AGRÁRIO,

TENTATIVA DE FUSÃO DAS FRAÇÕES PÚBLICAS,

REAPARECIMENTO DA ESTRATÉGIA OPORTUNISTA,

SURGIMENTO DE TENDÊNCIAS OU ALAS INTERNAS

 

A luta fracional em torno do Programa Agrário eclodiu no IV Congresso do POSDR, ocorrido em Stokholm, entre 10 e 25 de abril de 1906.

No domínio inter-fracional do POSDR, os mencheviques, opondo-se aos bolcheviques, defendiam a “municipalização”, i.e. a transferência das terras a “órgãos democráticos autônomos”.

No domínio intra-fracional bolchevique, Lenin, de um lado, fundando-se inteiramente na concepção de Marx e Engels, defendia não apenas a confiscação, mas também a nacionalização de toda a terra – no quadro de uma insurreição camponesa e do total completamento da Revolução Democrático-Burguesa.

De outro lado, Suvorov e Stalin – inspirados pelas teses de Rojkov -, opondo-se a Lenin, posicionavam-se contra a nacionalização, em prol da confiscação e distribuição de toda a terra entre os camponeses sem terra, como forma de “selar uma união revolucionária passageira com o campesinato”, tal como dizia Stalin.   

“Não podemos ignorar as reivindicações dos camponeses”, dizia Stalin.

Apesar das profundas diferenças relativas à questão agrária e, além disso, relacionadas com as táticas revolucionárias que envolveram a Revolução Russa de 1905-1907, no sentido de Lenin defender categoricamente a Insurreição Armada de Moscou de Dezembro de 1905 e Plekhanov condená-la inteiramente  - é possível verificar-se, entre os anos de 1903 e 1911, ao longo de um efêmero interstício, ocorrido entre fevereiro e maio de 1906, às vésperas e no quadro do IV Congresso da Unificação do POSDR, realizado em Estocolmo, sob o então peso majoritário da fração menchevique de Martov, até mesmo um curtíssimo episódio de ingente tentativa de dissolução e fusão das frações públicas então existentes, convertendo-se-as em tendências ou alas internas, tendo-se como base a admissão também pelos mencheviques do reconhecimento feito pelo III Congresso do POSDR de 1905 do princípio leninista de filiação partidária, como também o monumental ascenso revolucionário que percorria toda a Rússia czarista, naquele momento histórico.

Acerca do tema, Lenin formulou, em janeiro 1906, há 4 meses antes da realização do IV Congresso, as seguintes precisas considerações:

 

“Por fim, ainda algumas palavras sobre como devemos organizar nossa agitação interno-partidária em favor do boicote ativo da Duma, agora, no quadro do processo em curso de fusão das frações e de total unificação do POSDR.

A fusão é necessária. A fusão tem de ser apoiada.

No interesse dessa fusão, deve-se conduzir, de maneira camarada, a luta contra os mencheviques acerca da tática, na medida em que nos esforçamos por convencer todos os membros do Partido e limitamos a polêmica, apresentando, objetivamente, os argumentos em pró e em contra, esclarecendo a posição do proletariado e suas tarefas de classe.

Porém, a fusão não nos obriga, absolutamente, a disfarçar as diferenças táticas ou apresentar, de modo inconseqüente e diluído, a nossa formulação tática.

De nenhuma forma !

Devemos conduzir, aberta, direta e resolutamente, até o fim, a luta ideológica em favor da tática que consideramos como correta, i.e. em favor da tática defendida até o Congresso da Unificação.

Em um partido unitário, a tática que determina a imediata atividade partidária deve ser unitária.

Uma tal tática unitária deve ficar sendo a tática da maioria dos membros do partido : determinando-se inequivocamente a maioria, obriga-se a minoria a ela submeter-se politicamente, ainda que permaneça essa última com o direito de crítica e de agitação em prol de uma nova decisão da questão, em um novo Congresso do Partido.

No quadro da atual situação de nosso Partido, ambas as frações encontram-se de acordo em convocar um novo Congresso de unificação, aderindo às resoluções desse último.

O Congresso da Unificação estabelecerá, então, a tática unitária do Partido.

Nossa tarefa consiste em acelerar, através de todos os meios, a convocação desse Congresso e aspirar, da maneira mais enérgica possível, a que todos os membros do Partido adquiram uma clara compreensão e uma clara concepção acerca das diferentes táticas relativas a uma participação na Duma e a que todos os membros do Partido elejam seus delegados para o Congresso, com todo conhecimento de causa – depois de ponderarem fundamentalmente os argumentos de ambas as partes -, i.e. de maneira consciente e não ao acaso.   

O Congresso unificará nossa tática e  todo o nosso Partido.”[80]

 

Já propriamente no curso da XXVI Sessão do IV Congresso da Unificação, que teve lugar entre os dias 10 e 25 de abril de 1906, Lenin teve ainda oportunidade de destacar, expressamente, seus esforços de manter preservada a unidade do partido revolucionário proletário, com esteio na aplicação do princípio do centralismo democrático, ao proferir a seguinte declaração em face dos posicionamentos Vorobiov :

 

“Não é verdade que eu “apóie” o posicionamento do companheiro Vorobiov que afirmou não poderem bolcheviques e mencheviques trabalhar conjuntamente em um partido.

De nenhuma maneira, “apoio” uma tal afirmação e divido uma tal concepção.

O sentido das minhas palavras : “Alegro-me que o companheiro Vorobiov tenha sido o primeiro a dizer isso ...” foi exclusivamente irônico, pois os vencedores que possuem a maioria no Congresso revelaram apenas suas fraquezas, ao terem sido os primeiros a falar acerca de uma cisão.”[81]

 

Mais precisamente em 26 de abril de 1906, Lenin veio a redigir seu mais ingente Apelo ao Partido feito pelos Delegados do Congresso de Unificação que pertenceram à antiga Fração dos “Bolcheviques”, em favor da unidade do partido, nos seguintes termos claros e inequívocos, mesmo tendo sido, naquele episódio congressual, categoricamente derrotadas as suas mais importantes posições sobre tática revolucionária :

 

“Companheiros !

O Congresso de Unificação do POSDR teve o seu lugar.

Já não existe mais nenhuma cisão.

Não apenas fundiram-se, inteiramente, em sentido organizativo, as antigas frações dos “bolcheviques” e dos “mencheviques”, senão ainda alcançou-se a unificação do POSDR com a Social-Democracia Polonesa, assinou-se a unificação com a Social-Democracia da Letônia e encaminhou-se a unificação com a Social-Democracia Judaica, i.e. com o “Bund”.

O significado político desses fatos é muito grande, em todos os sentidos. Ele se tornará, em verdade, poderoso, em face da época histórica que presentemente vivenciamos. (...)

Em face dos decisivos e grandiosos acontecimentos que se situam pela frente na luta popular, é sobretudo importante alcançar a unidade prática do proletariado consciente de toda a Rússia e de todas as nacionalidades.

Em uma época revolucionária como essa, que agora vivenciamos, todos os erros teóricos e desvios táticos do Partido serão criticados, da maneira mais impiedosa, pela própria vida que educa e conscientiza a classe trabalhadora, em uma velocidade estonteante.

Em uma época como essa, o dever de todo social-democrata é o de aspirar a que a luta ideológica no Partido sobre questões da teoria e da tática seja conduzida da maneira mais aberta, ampla e livre possível, não perturbando ou dificultando ela, porém, de maneira nenhuma, a intervenção revolucionária unitária do proletariado social-democrático.(...)”[82]

 

Mesmo assinalando que já não existia, naquele momento histórico, “mais nenhuma cisão” entre bolcheviques e mencheviques, Lenin vincou, clara e nitidamente, nesse mesmo Apelo ao Partido quais as principais diferenças que ainda seguiam vivas, no imediato período posterior à realização do IV Congresso da Unificação :

 

“Não podemos e nem devemos silenciar o fato de que, segundo nossa mais profunda convicção, o Congresso de Unificação não compreendeu suas tarefas, de modo plenamente correto.

Nas três mais importantes resoluções do Congresso emergem claramente as falsas concepções da antiga fração dos “mencheviques” que, no Congresso, prevaleceu numericamente.

No que concerne ao Programa Agrário, o Congresso homologou, por princípio, a “municipalização.”

Municipalização significa propriedade dos camponeses sobre a terra parcelária e arrendamento pelos camponeses das terras dos proprietários fundiários, transferidas aos Semstvos.

Isso é, em essência, uma coisa intermediária entre autêntica Revolução Agrária e Reforma Agrária Cadete.

Os camponeses não aceitarão um tal plano.

Eles exigirão ou a repartição direta da terra ou a adjudicação de todo solo e e de toda a terra à propriedade do povo. (p. 313)

Na resolução sobre a Duma Imperial, o Congresso indicou como desejável que, nessa Duma, fosse formada uma fração parlamentar social-democrática.

O Congresso não pretendeu levar em conta o fato de que 9/10 dos trabalhadores da Rússia, dotados de consciência de classe – entre esses todos os proletários sociais-democráticos poloneses, letões e judeus – boicotaram essa Duma.

O Congresso rejeitou o requerimento de tornar dependente a participação nas eleições da possibilidade de uma agitação verdadeiramente ampla entre as massas. (...)

Enquanto sociais-democratas reconhecemos, evidentemente, de maneira principista, o dever de usar o Parlamento enquanto arma da luta proletária.

Porém, a questão inteira gira em torno da seguinte pergunta : “É admissível a participação da Social-Democracia em um tal “Parlamento” como é a nossa Duma e sob as atuais condições dadas ? É admissível a formação de uma fração parlamentar à qual não pertence nenhum parlamentar social-democrata eleito por organizações operárias ?

Nós achamos que não. (p. 314)

O Congresso rejeitou o requerimento de considerar como uma das tarefas do Partido a luta contra o jogo constitucional, a contra as ilusões constitucionais. (...)

Nas resoluções sobre o Levante Armado, o Congresso não formulou igualmente o que havia de ser necessário, i.e. : uma crítica completa dos erros do proletariado, uma clara apreciação da experiência de outubro a dezembro de 1905.

Ele nem sequer empreendeu a tentativa de investigar a inter-relação existente entre greve e levante.

Pelo contrário, preponderam nas resoluções reservas temerosas contra o levante armado..

O Congresso não disse aberta e claramente à classe trabalhadora que o Levante de Dezembro foi um erro, ao mesmo tempo em que, porém, condenou-o, de maneira acobertada.

Entendemos que, desse modo, confunde-se mais do que clarifica-se a consciência revolucionária do proletariado. (p. 315) 

Contra as resoluções do Congresso do Partido que consideramos equivocadas, deveremos lutar e lutaremos ideologicamente.

Nesse quadro, porém, declaramos diante de todo o Partido que somos contra toda e qualquer cisão.  

Somos pela subordinação às resoluções partidárias.

Na medida em que repudiamos um boicote do Comitê Central e valorizamos o trabalho comum, declaramo-nos de acordo com que militantes nossos incorporem-se ao Comitê Central, apesar de lá permanecerem em ínfima minoria.

Em nossa mais profunda convicção, as organizações operárias sociais-democráticas devem ser unitárias, porém, nessas organizações unitárias deve ter lugar uma ampla e livre apreciação das questões partidárias, uma crítica e um julgamento amplos e camaradas dos acontecimentos da vida do Partido. (...)

 Conclamamos todos nossos adeptos a essa subordinação e a essa luta ideológica.

Recomendamos a todos os membros do Partido que analisem detalhadamente as resoluções partidárias.

A revolução ensina e acreditamos que a unidade prática da luta do proletariado social-democrático de toda a Rússia protegerá nosso Partido da prática de erros, quando a crise política vindoura for colocada para ser decidida.

No momento da luta, os próprios acontecimentos indicarão às massas trabalhadoras a tática correta. (p. 316)”[83] 

 

No campo propriamente da disciplina estatutária do POSDR, V. I. Lenin, ainda no quadro de seu Apelo ao Partido, teve a oportunidade de pronunciar-se acerca da defesa de um importante corolário genuinamente marxista, expressivo da unidade do partido, uma das verdadeiras garantias contra cisões interno-partidárias infundadas, qual seja : a clara relação a ser estabelecida entre o Comitê Central e a Redação do  Órgão Central do Partido.

Esse debate envolveu a disciplina da então existente Cláusula 7 do Estatuto do POSDR.

Quando no IV Congresso da Unificação do POSDR de 1906 examinou-se essa temática, os mencheviques insistiram em que os redatores do Órgão Central fossem eleitos diretamente pelo Congresso e se lhes concedessem votos deliberativos no tratamento de questões de natureza política junto ao Comitê Central.

Lenin e os bolcheviques posicionaram-se, resolutamente, em favor da nomeação da Redação do Órgão Central pelo Comitê Central e pelo direito desse último de revogar nomeações efetuadas de redatores. 

A maioria menchevique do IV Congresso da Unificação logrou, entretanto, fazer aprovar sua proposta, sendo que, tão somente por ocasião da revisão estatutária, ocorrida no V Congresso do POSDR de 1907, vieram os bolcheviques a reverter essa sua derrota, fazendo aprovar, por maioria, a redação da Cláusula 7 na formulação precedentemente postulada por Lenin.

De toda sorte, em seu Apelo ao Partido, de 26 de abril de 1906, Lenin ainda teve a oportunidade de destacar :

 

“Na questão organizativa, possuimos diferentes posicionamentos apenas em relação aos direitos da Redação do Órgão Central.

Lutamos pelo direito de o Comitê Central poder nomear e destituir o Órgão Central.

Todos estivemos de acordo acerca do princípio do centralismo democrático, acerca da preservação dos direitos da minoria de toda oposição leal, acerca da autonomia de toda e qualquer organização partidária, acerca do reconhecimento da elegibilidade, prestação de contas e revogabilidade dos quadros profissionais do Partido.

No respeito prático desses princípios organizativos, na sua concretização sincera e conseqüente, vemos uma garantia contra cisões, uma garantia de que a luta ideológica no Partido pode e deve ser inteiramente compatível com a unidade organizativa mais rigorosa, com a subordinação de todos às resoluções do Congresso geral.”[84]   

 

CAPÍTULO 8.

V CONGRESSO DE 1907

DO PARTIDO OPERÁRIO SOCIAL-DEMOCRÁTICO RUSSO :

O RESSURGIMENTO DO SISTEMA DE FRAÇÕES

 

Ainda no curso de 1906 e, mais nitidamente, no marco do V Congresso do POSDR, realizado em Londres, em 1907, sob o então peso majoritário da fração bolchevique de Lenin, assiste-se a um quadro em que o POSDR encontrava-se, formalmente, unido, porém registrando o ressurgimento de frações públicas, i.e. voltavam a existir, faticamente as duas principais frações no seio do partido reunificado, as frações dos bolcheviques e dos mencheviques, dotadas de caráter público, ou ainda : duas organizações realmente separadas, com pública intervenção político-partidária, vinculadas, porém, em sentido formal, ao mesmo partido político.

Nesse contexto, os organismos de base do partido apresentavam-se mais coesos, ao passo que as direções bolchevique e menchevique elaboravam, em cada questão relevante da luta de classes, duas táticas substancialmente diferentes.

Acerca desse contexto histórico, Lenin observou, detalhadamente :

 

“Seus adeptos litigavam entre si, nas organizações unificadas dos trabalhadores, (p. ex. nos debates acerca da consigna sobre a Duma, i.e. sobre o Gabinete dos Constitucionais- Democratas(Cadetes), em 1906, ou nas eleições para o Congresso de Londres, de 1907), e essas questões foram decididas por maioria de votos : uma fração surgiu como derrotada no Congresso Unitário de Stockholm (1906) e a outra, no Congresso Unitário de Londres (1907).

Essas coisas são fatos da história do marxismo organizado da Rússia geralmente conhecidos por todos. (...)[85]

 

O renascimento de tal sistema de frações prolongou-se, então, de 1906 a fins de 1911 - início de 1912.

 

 

CAPÍTULO 9.

III CONFERÊNCIA DE 1907 DO POSDR :

LUTA DE LENIN CONTRA O BOICOTISMO BOLCHEVIQUE

ÀS ELEIÇÕES PARA A III DUMA DO ESTADO

 

Precisamente a partir de 3 de junho de 1907, data do Golpe de Estado Reacionário de Stolypin – consagrador do assim denominado “Regime de 3 de Junho” -, verifica-se, então, o surgimento de uma mudança abrupta no cenário da luta de classes, bem como uma pesada crise no desenvolvimento do movimento dos trabalhadores e do POSDR.

Stolypin logrou promover a expulsão imediata de 55 Deputados do POSDR, decretando a prisão de 16 deles, e, além disso, suspendeu os trabalhos da Duma do Estado, promulgando uma nova lei eleitoral.

A derrota da Revolução Russa de 1905-1907 e o Golpe de Estado Reacionário de Stolypin fez com que emergissem, majoritariamente entre bolcheviques, posições boicotistas, encabeçadas por Kamenev e Stalin, Krassin, Bogdanov e Lunatcharsky, enquanto reação à desbragada violência reacionária do czarismo. 

No quadro da III Conferência do POSDR, ocorrida entre 21 e 23 de julho de 1907, na cidade de Kotka, na Finlândia, dos nove delegados da fração pública bolchevique, Lenin – opondo-se às posições prevalentes em sua própria fração, tal como defendidas por Bogdanov - votou isoladamente contra o boicotismo às novas eleições a serem realizadas para a III Duma do Estado, alinhando-se, assim, com os votos dos 5 delegados mencheviques, 5 sociais-democratas poloneses, 2 letões e 5 do Bund.

Pois, sem temor de permanecer passageiramente em minoria entre os bolcheviques, Lenin assinalou: 

 

“O boicote é uma declaração de guerra aberta contra o antigo Governo, um ataque direto contra ele.

A não ser em um amplo ressurgir revolucionário ... não se deve contar com o êxito do boicote.”[86]

 

 

CAPÍTULO 10.

O SURGIMENTO DO MENCHEVISMO LIQUIDACIONISTA

E O PROCESSO DE CISÃO DA FRAÇÃO MENCHEVIQUE

A PARTIR DE DEZEMBRO DE 1908

 

No interior dos dois principais protagonistas públicos do sistema de frações do POSDR, i.e. a fração bolchevique e a fração menchevique, registrou-se, a seguir, a emergência de novos agrupamentos ideológicos de caráter fracional que passavam a constituir um fenômeno de grande importância na vida desse partido.

No quadro interno da fração menchevique do POSDR, i.e. no domínio intra-fracional menchevique, a partir de dezembro de 1908, sob a direção sobretudo de Potressov e Tcherevanin, Axelrod e Martov, o menchevismo assumiu contornos nitidamente liquidacionistas, caracterizando-se, então, em função de sua defesa aguerrida de alianças a serem celebradas abertamente com partidos burgueses sob as seguintes bandeiras centrais :

 

De natureza ideológica :

 

a. negação da luta de classes revolucionária do proletariado socialista ;

 

b. rejeição do papel hegemônico a ser desempenhado pelo proletariado na Revolução Democrático-Burguesa.

 

De natureza organizativa :

 

a.    recusa da necessidade de organização um partido marxista

revolucionário ilegal.

 

b.    intervenção aberta e pública nas colunas da imprensa legal, nas

organizações legais dos trabalhadores, sindicatos e cooperativas, congressos públicos, em franco prejuízo do partido ilegal[87].

 

Além disso, cumpre destacar que o menchevismo liquidacionista então surgido – defendendo a independência e a neutralidade do sindicatos - opunha-se ainda abertamente à orientação de Lenin, plasmada na Resolução do Comitê Central do POSDR sobre os Sindicatos, de 13 de fevereiro de 1908, em que se estabeleceu deverem todos os sociais-democratas formar grupos no interior dos sindicatos e, onde não existissem esses, fundar sindicatos, trabalhando sempre sob a direção ideológica do Partido, sendo que, nos casos em que a supervisão da Okhrana (Polícia Secreta Czarista) tornasse impossível organizar sindicatos livres, sindicatos ou núcleos sindicais haveriam de ser organizados ilegalmente[88].

Entretanto, já nesse mesmo mês de dezembro de 1908, Plekhanov, seguido pelos adeptos de seu agrupamento ideológico – sem prejuízo de sua posição favorável à independência e à neutralidade dos sindicatos -, encabeçou uma iniciativa de cisão intra-fracional contra as principais características político-partidárias do menchevismo liquidacionista, ao suspender suas atividades junto à redação do órgão jornalístico liquidacionista denominado “Golos Sotsial-Demokrata (Voz do Social-Democrata)”.

Tal processo de cisão no domínio intra-fracional menchevique, veio, então, a ser manifestamente formalizado quando, em 13 maio de 1909, publicou-se, no Nr. 14 de “Golos Sotsial-Demokrata (A Voz do Social-Democrata)”, um carta de Plekhanov em que esse último declarava, formalmente, ao público leitor seu abandono da redação desse órgão jornalístico.

Em agosto de 1909, Plekhanov voltou a editar, então, seu assim denominado “Dnievik Sotsial-Demokrata (Diário de um Social-Democrata)”, sendo que ele e seu agrupamento, embora permanecendo vinculados às posições históricas do menchevismo oportunista, passaram a pronunciar-se também em defesa do Partido ilegal e de suas atividades de organização clandestina.

 

 

CAPÍTULO 11.

CONFERÊNCIA DE 1909 DA REDAÇÃO AMPLIADA DO JORNAL

“PROLETARII(O PROLETÁRIO)”, ÓRGÃO CENTRAL

DA FRAÇÃO PÚBLICA BOLCHEVIQUE  NO INTERIOR DO POSDR :

FRACIONALISMO INTRA-BOLCHEVIQUE,

LUTA CONTRA AS FRAÇÕES PÚBLICAS

DOS ABSTENCIONISTAS (OTZOVISTAS),

DOS ULTIMATISTAS (ULTIMATISTI)

E DOS CONSTRUTORES DE DEUSES(BOGOSTROITELIS)

 

Em sentido estatutário, jamais os bolcheviques postularam a admissão de "frações públicas permanentes".

No quadro interno da fração bolchevique do POSDR, i.e. no domínio intra-fracional bolchevique - operante em largos traços enquanto fração pública do POSDR de fins de 1903 – início de 1904 até fins de 1911 - início de 1912 -, Lenin e seus adeptos, embora sempre seriamente admitindo a existência de tendências e frações internas, lutaram, ininterrupta e rigorosamente, contra o repetido fenômeno existencial das frações públicas, cujo delineamento é passível de fundadamente ser concebido apenas em momentos excepcionais da vida de uma organização marxista-revolucionária.  

O exemplo mais cabal fornecido pela história da luta de classes nesse sentido, situa-se, precisamente, entre 1907 e 1909, anos esses posteriores à derrota da Revolução Russa de 1905-1907, tendo-se precisamente em consideração o tratamento conferido por Lenin e seus agora assim chamados “bolcheviques oficiais-ortodoxos” aos agrupamentos ideológicos de caráter fracional, formados, no interior do domínio intra-fracional bolchevique, pelos abstencionistas (otzovistas), ultimatistas(ultimatisti) e construtores de deuses (bogostroitielis) todos eles defensores da plataforma política de sistemático boicote das eleições parlamentares, realizadas nos limites da Lei Eleitoral de Stolypin, revogação dos mandatos dos Deputados do POSDR junto à III Duma de Estado e suspensão do trabalho marxista-revolucionário no quadro das organizações e instituições legais do regime, fundando-se, para isso, em supostas virtudes e conclusões, extraídas das então novidadeiras concepções empiro-criticistas, subjetivistas-idealistas, dos filósofos alemães neo-kantistas Ernst Mach e Richard Avernarius[89].    

No início de 1909, os três agrupamentos ideológicos acima referidos, i.e. os abstencionistas (otzovistas), encabeçados por Bogdanov e Krassin, os ultimatistas (ultimatisti), dirigidos por Shantser, e os construtores de deuses(bogostroitielis), protagonizados por Lunatcharsky e Gorki, conformaram-se em um grupo dinamizador da iniciativa de realização de uma Escola Fracional, a ter lugar na Ilha de Capri, na Itália.        

Prolongando-se ao longo de 4 meses de estudos – i.e. de agosto a dezembro de 1909 -, a Escola de Capri constituiu-se em centro de surgimento embrionário de uma nova fração pública, unificadora dos três agrupamentos ideológicos em referência, dotados de caráter fracional.

Gorki – aliado bolchevique de Lunatcharsky, Bogdanov, Bassarov, Pokrovsky – pregava, em 1908, não se dever conceber os seres humanos tal como divididos em classes sociais, não se erigir líderes individuais e, pelo contrário, propagar-se o surgimento de uma nova doutrina para as massas revolucionárias, baseada na busca e na criação de Deus, na “espiritualização” da revolução e na conciliação entre religião e marxismo, no quadro de um Terceiro Testamento, fomentador do amor e da confiança na humanidade :

 

“Conclamei o gênero humano para uma nova religião…

As pessoas são os criadores…

Nelas, Deus se aloja. …

Vi aqui minha mãe, no espaço em meio às estrelas…

E vi o seu mestre, o Povo Todo-Poderoso e Imortal…

Então, comecei a minha oração: “És meu Deus, Povo Soberano

e Criador de Todos os Deuses que formaste a partir das belezas

do Teu espírito, no cansaço e no sofrimento de Tua procura.

E o mundo não deverá ter nenhum outro Deus, senão a ti.

Pois, és o único Deus que faz milagres.

 

Cristo não foi suficientemente duro.

Disse que aquele cálice deveria dele ser afastado e reconheceu o Imperador.

Porém, Deus não pode reconhecer o poder de um homem sobre outro, onde Ele é inteiramente o poder !

Ele não divide a sua alma : isso aqui é para Deus, aquilo ali para os homens ...”[90]

 

Por sua vez, Bogdanov - rejeitando o fundamento marxista de que não é a consciência do homem que determina o seu ser social, senão precisamente o inverso – defendia ser possível determinar e superar o ser social do homem com o auxílio da consciência, mesmo porque inviável, segundo ele, seria separar-se o ser social do homem de sua consciência intelectual.

Para Bogdanov, o progresso social mesmo seria o resultado de uma harmonia crescente entre as atividades de aprender e conscientizar-se, sendo a própria consciência o “princípio organizativo da práxis social” em face das relações econômico-materiais, concebidas enquanto domínios limitados dos processos técnicos e ideológicos.

Nesse sentido, o atingimento da sociedade sem classes seria obtido, segundo ele, na medida em que a classe trabalhadora conseguisse educar-se com base na “Proletkult(Cultura Proletária)”, propugnadora da formação da vontade e do sentimento coletivos, em contraste com o individualismo burguês-egoísta.

A Conferência de Junho de 1909 da Redação Ampliada do Jornal “Proletário”, órgão central da fração pública bolchevique, no interior do POSDR, desferiu uma luta implacável contra tais manifestações público-fracionais, comandadas por Bogdanov, Schantser e Lunatcharsky, inteiramente capituladoras perante os propósitos mais essenciais do menchevismo liquidacionista, i.e. o fomento do revisionismo doutrinário, do reformismo político e do oportunismo organizativo no interior do marxismo revolucionário[91].  

A conferência em tela estabeleceu, majoritariamente – a despeito das posições dos assim então denominados “bolcheviques conciliadores-virtuosos”, capitaneados por Rykov e Dubrovinsky, Iurenev e Sokolnikov - uma resolução afirmando que “o bolchevismo enquanto corrente determinada do POSDR não possui nada em comum com o abstencionismo e o ultimatismo”, bem como “nada em comum com tais deformações (i.e. deformações deísticas e teísticas) do socialismo científico”, ao mesmo tempo em que conclamou a militância bolchevique a combater, resolutamente, essas degenerações da doutrina dialética histórico-materialista de Marx e Engels.

O episódio mais expressivo desse processo de luta contra o fracionalismo público no interior das fileiras dos bolcheviques – que não poderia jamais ser considerado de nenhuma forma como sendo de caráter “permanente” ou “virtualmente permanente” – foi, sem dúvida, a mais categórica condenação das posições sufragadas pelos abstencionistas (otzovistas), ultimatistas (ultimatisti) e construtores de deuses (bogostroitielis) por essa conferência do bolchevismo ortodoxo,qualificando-se-os, precisamente, como “liquidacionistas de signo invertido” ou ainda “inimigos mascarados do Partido”, bem como a mais resoluta expulsão do bolchevique abstencionista Bodganov das fileiras bolcheviques.

Além disso, a Conferência de Junho de 1909 da Redação Ampliada do Jornal “Proletário”, órgão central da fração pública bolchevique, no interior do POSDR, reprovou a Escola de Capri por representar “um novo centro de uma fração que se cindiu dos bolcheviques.”

 

 

CAPÍTULO 12.

LUTA DA FRAÇÃO BOLCHEVIQUE

CONTRA A FRAÇÃO “VPERIOD(AVANTE)” DO POSDR,

SURGIDA EM DEZEMBRO DE 1909

EM SEU PRÓPRIO DOMÍNIO INTRA-FRACIONAL :

LUTA CONTRA A UNIFICAÇÃO

COM O ABSTENCIONISMO, O ULTIMATISMO

E A CRIAÇÃO DE DEUSES,

SOB OS AUSPÍCIOS DA IDEOLOGIA IDEALISTA-SUBJETIVISTA

DE MACH E AVENARIUS

 

Exemplo semelhante de luta contra a tentativa de subordinação ideológica do proletariado à ideologia subjetivista-idealista e ao “liquidacionismo de signo invertido”, é-nos fornecida, a seguir, por Lenin e os bolcheviques, já propriamente a partir de dezembro de 1909, em seu combate à nova fração pública emergente do processo de fusão, selado pela Escola de Capri, e reunida, agora, em torno do órgão jornalístico “Vperiod (Avante)”.

É correto afirmar, porém, que a nova fração avanteísta (vperiodista), situada sob a direção de Bogdanov e Lunatcharsky, surgia intervindo ativamente no interior do POSDR, porém não mais no domínio intra-fracional bolchevique.[92]

 

CAPÍTULO 13.

LUTA DA FRAÇÃO BOLCHEVIQUE NO INTERIOR DO POSDR

CONTRA A FRAÇÃO “NÃO-FRACIONALISTA” DE TROTSKY:

CONTRA A UNIDADE DE BOLCHEVIQUES E

LIQUIDACIONISTAS DE TODOS OS SIGNOS

 

Também no quadro inter-fracional do regime de sistema de frações do POSDR, existente a partir de fins 1903 – início de 1904 até fins de 1911 – início de 1912, despregou-se, entre 1908 e 1912, a luta de Lenin e dos “bolcheviques oficiais-ortodoxos” contra a fração pública unionista “não-fracionalista” do POSDR, dirigida por Trotsky, e defensora da unidade de todos os sociais-democratas russos – seja dos fiéis ao Partido e seja dos liquidacionistas de todos os gêneros -, a partir da publicação do jornal vienense “Pravda (A Verdade)”.

 

CAPÍTULO 14.

LUTA DA FRAÇÃO BOLCHEVIQUE

CONTRA A FRAÇÃO DOS BOLCHEVIQUES

CONCILIADORES-VIRTUOSOS “NÃO-FRACIONALISTAS” :

CONTRA O APOIO VELADO AOS LIQUIDACIONISTAS,

CONTRA O FIM DO SISTEMA DE FRAÇÕES

 

Ao mesmo tempo, no domínio intra-fracional bolchevique, Lenin e os “bolcheviques oficiais-ortodoxos” vieram a travar ainda mais uma batalha ao combaterem a fração dos “bolcheviques conciliadores-virtuosos não-fracionalistas” ou ainda “bolcheviques pró-Partido”, encabeçados por Rykov e Dubrovinsky, Iurenev e Sokolnikov, no período de junho de 1909 a janeiro de 1912.

Essa fração dos bolcheviques conciliadores-virtuosos “não- fracionalistas” aproximou-se, de modo mais nítido, a partir de janeiro de 1910, das posições da fração pública unionista “não-fracionalista” de Trotsky, opondo-se à subsistência do sistema de frações, então existente, sob a consigna :

 

“As frações e o sistema de frações constituem uma luta da inteligência pelo exercício da influência sobre o proletariado imaturo.”[93] 

 

CAPÍTULO 15.

 FORMAÇÃO E FUNCIONAMENTO

DO BLOCO BOLCHEVIQUE-MENCHEVIQUE UNITÁRIO

DOS FIÉIS AO PARTIDO

ENTRE 1909 E 1913 

 

A organização fracional de Lenin, ativa no interior do POSDR ao longo dos anos referidos, jamais perdeu de vista a imprescindibilidade do impulsionamento da estratégia de construção de um autêntico e unitário partido marxista-revolucionário, postulada sempre no sentido da relatividade e provisoriedade das lutas fracionais que, conseqüentemente, ou haveriam de rumar para a reunificação das forças revolucionárias, em conformidade com a defesa dos princípios e corolários mais essenciais do marxismo revolucionário, ou, então, para a mais integral ruptura, reabrindo a via para a estruturação de um novo partido que retomasse a preservação do programa, do estatuto e da direção revolucionários do proletariado, em sua luta de libertação contra o jugo capitalista-imperialista, autocrático e latifundiário.

Precisamente nesse sentido, deve ser entendida a tática de frente única revolucionário-partidária condensada no Bloco Unitário dos Fiéis ao Partido, constituído, a partir de agosto de 1909, entre os adeptos bolcheviques de Lenin e os mencheviques fiéis ao Partido, comandados por Plekhanov, sob proposição desse último.

Em face da cisão de dezembro de 1908, ocorrida no domínio intra-fracional menchevique, entre mencheviques fiéis ao Partido e mencheviques liquidacionistas, Lenin acolheu, calorosamente, a proposta de Plekhanov de constituição de um Bloco Unitário dos Fiéis ao Partido e conclamou os bolcheviques a fomentarem, veementemente, o aprofundamento da separação daquelas duas vertentes mencheviques, procurando uma aproximação com a primeira delas, sobre a base da luta em prol da construção do Partido legal e ilegal, bem como em favor da mais rigorosa disciplina de militância em seu interior.

Com essa índole, foi edificado o Bloco Unitário dos Fiéis ao Partido em cujo seio, segundo os bolcheviques, “as diferenças de concepções não deveriam perturbar o trabalho, a marcha e a luta comuns em favor do Partido e contra os liquidacionistas.”

Assim, é possível verificar-se, de agosto de 1909 até agosto de 1913, mencheviques, adeptos de Plekhanov, e bolcheviques, encabeçados por Lenin, trabalharem, conjuntamente, no interior de diversos comitês regionais, bem como no quadro da redação dos jornais bolcheviques “Zvezda (a Estrela)”, “Rabotchaia Gazeta (Diário Operário)” a “Pravda(A Verdade)”.

A partir de 1909 e durante os anos subseqüentes de sua existência, o Bloco Unitário dos Fiéis ao Partido, encabeçado por Lenin e Plekhanov, foi capaz, então, de impulsionar uma luta impiedosa contra o “Bloco sem Princípios” então articulado por Trotsky – a partir do órgão jornalístico ”Pravda (A Verdade)”, de Viena - entre unionistas “não-fracionalistas”, mencheviques liquidacionistas – representados por Martov e Axelrod, Potressov e  Tcherevanin – e liquidacionistas de signo invertido capitaneados por Lunatcharsky e Bogdanov –, cujo objetivo maior era, segundo Lenin, causar “aborrecimento ao centro bolchevique por sua luta sem quartel na defesa de suas idéias.”[94]

Durante o período em tela, Plekhanov incorporou-se à então redação do Órgão Central do POSDR, cujo jornal era, naquela ocasião, o “Sotsial-Demokrat (O Social-Democrata)” que contava com a participação de representantes majoritários dos bolcheviques, alguns poucos mencheviques-liquidacionistas e sociais-democratas poloneses.

Também nesse contexto de vigência do Bloco Unitário dos Fiéis ao Partido, Lenin apresentou, em 21 de outubro de 1909, seu Projeto de Resolução acerca da Consolidação do Partido e sua Unidade à reunião da redação do órgão central “Sotsial-Demokrat (O Social-Democrata)” – fundado no teor de seu artigo intitulado “Sobre os Métodos para a Consolidação de nosso Partido e sua Unidade” -, visando ao impulsionamento da luta contra as diversas nuances de oportunismo liquidacionista, então existentes no interior do POSDR, e à preservação da autonomia da fração oficial-ortodoxa do bolchevismo[95].

Mesmo em face da existência do Bloco Unitário dos Fiéis ao Partido, a maioria da redação de “Sotsial-Demokrat (O Social-Democrata)”, detida, naquele então, por bolcheviques conciliadores-virtuosos “não-fracionalistas”, encabeçados por Rykov e Dubrovisnky, Iurenev e Sokolnikov, logrou fosse rejeitado o projeto de resolução de Lenin acima referido, bem como impedida a publicação de seu artigo “Sobre os Métodos para a Consolidação de nosso Partido e sua Unidade”, na qualidade de artigo editorial desse órgão jornalístico central, admitindo-a tão somente enquanto artigo polêmico, assinado exclusivamente por seu autor e colocado sob sua responsabilidade individual.

Ainda no quadro desse Bloco Unitário dos Fiéis ao Partido, deve ser entendida a convocação e realização da Plenária do Comitê Central do POSDR, denominada, então, de “Plenária da Unificação”, ocorrida entre os dias 2 e 23 de janeiro de 1910, na cidade de Paris.

Nela, compareceram representantes de todas as frações, tendências e agrupamentos ideológicos do POSDR, bem como das organizações sociais-democráticas polonesa, letã, ucraniana e do Bund.

Em verdade, opondo-se, resolutamente, à orientação de Lenin de consolidação do Bloco Unitário dos Fiéis ao Partido – selado com os adeptos mencheviques de Plekhanov, em função da luta contra todas as nuances de liquidacionismo partidário – a fração dos bolcheviques conciliadores-virtuosos “não-fracionalistas”, encabeçados por Rykov e Dubrovinsky, Iurenev e Sokolnikov, em aliança com a fração pública unionista “não-fracionalista” de Trotsky, defendendo a ocorrência de tal plenária, postularam a mais completa dissolução do sistema de frações do POSDR, então existente, bem como a incondicional unificação dos bolcheviques com os mencheviques liquidacionistas, liquidacionistas de signo invertido e “não-fracionalistas” de todos os gêneros.

Os bolcheviques conciliadores-virtuosos “não-fracionalistas”, associados aos defensores da fração pública unionista “não-fracionalista” de Trotsky, detendo em suas mãos a maioria da “Plenária da Unificação” em referência, lograram fazer aprovar, contra os posicionamentos de Lenin, uma resolução “não-fracionalista” de extinção do jornal bolchevique “Proletarii(O Proletário)”, bem como propugnadora da dissolução do centro bolchevique, transferindo-se todo o seu patrimônio físico ao Comitê Central do POSDR, bem como seus recursos líquidos à II Internacional Socialista, na pessoa de seus representantes fiduciários Franz Mehring, Clara Zetkin e Karl Kautsky.

Nesse mesmo sentido, o “Sotsial-Demokrat (O Social-Democrata)”, devendo passar a ser o órgão jornalístico do Comitê Central do POSDR, haveria de vir a ser dirigido por um comitê incluindo os nomes de Zinoviev, Lenin, Dan e Martov.

Além disso, a “Plenária da Unificação” estabeleceu que Kamenev seria incorporado no comitê de redação do jornal vienense “Pravda(A Verdade)” de Trotsky, sendo esse jornal financeiramente sustentado pelo centro, ainda que não adquirisse o caráter de órgão oficial do POSDR.

Nesse contexto, pressionado a aceitar tais condições reputadamente “não-fracionalistas” - apoiando-se, porém, nas forças do Bloco Unitário dos Fiéis ao Partido -, Lenin logrou fosse acolhido um adendo à resolução de dissolução do “Proletarii(O Proletário)” e do centro bolchevique, condicionando-a à simultânea dissolução dos jornais “Golos Sotsial-Demokrata (A Voz do Social-Democrata)” e “Vperiod (Avante)”, bem como dos centros menchevique-liquidacionista e liquidacionista de signo invertido.

Ao mesmo tempo, sob implacável insistência de Lenin, a “Plenária da Unificação” foi forçada a adotar uma resolução condenatória de todas as nuances de liquidacionismo do Partido[96].

A despeito disso, a plenária em destaque elegeu novos representantes do menchevismo liquidacionista para importantes cargos de direção das instituições centrais do POSDR, sob intenso protesto de Lenin e dos bolcheviques oficiais-ortodoxos.

Desse modo, o menchevismo liquidacionista conquistou a direção do Bureau Estrangeiro do POSDR, operante na qualidade de representante de todo o Partido no exterior, permanecendo subordinado apenas ao Colegiado Russo do Comitê Central do POSDR[97]. 

Em uma carta dirigida a Gorki, datada de 11 de abril de 1910, Lenin pronunciou-se da seguinte forma acerca do estado efetivo da organização marxista-revolucionária russa, existente naquele então :

 

“Temos um bebê coberto de abscessos. ...

Se der certo, ou abrimos a ferida, deixamos sair o pus, curamos a criança e a criamos, ou, se der errado, a criança morrerá.

Então, ficaremos, por um tempo, sem criança (i.e. reconstruiremos a fração bolchevique novamente) e daremos à luz, a seguir, uma criança mais saudável.”